Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Especial Dia dos Pais – Seguindo o caminho inverso

BÁRBARA NÓBREGA MANGIERI | 12/08/2018 | 04:00

Fernando Alves de Almeida, de 33 anos, teve um pai ausente. “Ele veio da roça, teve uma infância dura e era bem rígido”, conta. “Quando eu era criança, o papel do pai era trazer o dinheiro para casa e só”, lembra. O engenheiro civil. Porém, ele luta diariamente para fazer o caminho inverso. E faz. Como trabalha em home office, ele passa mais tempo com as crianças do que sua esposa, Marcela Pompermayer, de 43 anos, que é professora na rede municipal de ensino. “É difícil, eles dão muito trabalho”, admite. “Mas tanto eu quanto meus amigos e outros homens da minha geração estamos descobrindo ainda o que é ser um pai presente, mais participativo”, diz.

Seus filhos, Isabela e Danilo, de 5 e 7 anos, poderiam ter tido uma história parecida de ausência paterna (e materna), não fosse por ele e Marcela, que adotaram o casal de irmãos. “Quando a conheci, ela já estava na fila da adoção há quatro anos”, conta Fernando. “Ela já me contou isso no primeiro encontro e disse que, se eu não estivesse disposto a encarar o desafio, ela iria embora. Isso já me despertou o interesse”, lembra. Ele confessa que já tinha o sonho de ser pai, mas não imaginou que seria dessa maneira.

LEIA O ESPECIAL DIA DOS PAIS

Foto: Rui Carlos/Jornal de Jundiaí

Foto: Rui Carlos/Jornal de Jundiaí

Isabela veio primeiro, com quase dois anos, em 2015. “Nove meses depois de nos casarmos, a Justiça autorizou a adoção”, diz. O casal ficou três meses em fase de adaptação, visitando o abrigo com frequência e, às vezes, a levando para passear. Depois, a Justiça deu a guarda provisória a Fernando e Marcela. Por dois anos, eles tiveram que fazer relatórios e receber visitas de pessoas do fórum, para garantir o bem-estar da menina.

Três anos depois, o casal resolveu passar por todo o processo novamente para adotar Danilo, irmão mais velho de Isabela por parte de mãe. Por ser muito nova, ela não tem lembranças dos pais biológicos, mas Danilo, que foi adotado já com 5 anos, ainda guarda traumas do histórico de maus-tratos e abandono que o levou a ser separado da irmã em dois núcleos diferentes da Casa de Nazaré.

Antes de conhecer os pais, Danilo passou um ano com duas pessoas que se diziam avós paternos, mas depois de um teste de DNA foi provado que não eram. “Então entramos com o pedido da guarda e, como já estávamos com a Isabela, tivemos preferência”, lembra Fernando.“Foi uma adoção difícil. Ele costumava ter ataques frequentes e até hoje existe uma competição comigo, essa coisa do Complexo de Édipo”, comenta.

Preparação
O conceito criado por Sigmund Freud, que explica porque os meninos apresentam comportamentos de desejo amoroso em relação à mãe e de hostilidade em relação ao pai durante a infância, foi apresentado a Fernando durante as sessões de terapia. “Todo mundo aqui em casa tem psicólogo, exceto a Isa” afirma. Ele conta que o acompanhamento psicológico é essencial para facilitar a criação de um laço familiar entre ele, Marcela e Danilo, e para que todos aprendam a lidar com os traumas. Fernando ressalta, porém, que todos os conflitos pelos quais sua família adotiva passa são comuns aos de famílias biológicas.

Por isso, ele enxerga o processo terapêutico também como uma oportunidade de estar sempre se questionando o que pode fazer a mais por seus filhos. “Às vezes a gente acha que está disciplinando, mas está só causando mais sofrimento”, reflete. O engenheiro também frequenta os encontros do Projeto Semente, do Grupo de Apoio à Adoção (GAA), desde que topou entrar nessa aventura com Marcela. Alguns encontros são temáticos, mas em sua opinião o mais rico é o relato de outros pais. “Você quebra aquela imagem poética do que é ter filhos. É realmente uma preparação para a paternidade”, conta.


Link original: https://www.jj.com.br/jundiai/especial-dia-dos-pais-seguindo-o-caminho-inverso/
Desenvolvido por CIJUN