Jundiaí

Este ano em Jundiaí já foram registrados 19 casos de suicídio

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Crédito: Reprodução/Internet
Você conhece alguém que tem depressão? Será que esta pessoa não está ao seu lado e você nem percebeu? Pois é. Os sinais podem não ser tão claros, mas há sempre indícios de que algo está errado quando uma pessoa passa pelo processo de depressão. E é para falar sobre este assunto que o tema do Setembro Amarelo deste ano é 'Na Direção da Vida - Depressão sem Tabu', iniciativa com o objetivo de abrir o diálogo e alertar a sociedade sobre a doença. Este ano o girassol é o símbolo da campanha. Com foco nos jovens, a proposta é enfatizar a necessidade de atenção especial com o bem-estar e a saúde mental de crianças e adolescentes. Em Jundiaí, só este ano já foram registrados 19 óbitos referentes a suicídio, segundo dados da VigilânciaEpidemiológica. Em todo o ano passado foram 25 casos. Vale destacar que apenas um deles era de pessoas entre 10 e 19 anos de idade. Segundo o coordenador de Saúde Mental da Unidade de Gestão de Promoção da Saúde (UGPS), Alexandre Moreno Sandro, as pessoas precisam ficar atentas aos alertas para o risco de comportamento suicida entre crianças e adolescentes, como alteração nos níveis de atividade e humor, isolamento, expressão de ideias ou de intenções suicidas e até falta de esperança. "A família deve prestar atenção às necessidades da criança e do adolescente, respeitando seu momento de desenvolvimento. Sempre acompanhá-las e estarem atentos a eventuais mudanças de comportamento, seja no padrão de sono, rendimento escolar ou problemas de apetite", orienta o coordenador. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que o Brasil é o país com maior percentual de depressão na América Latina, chegando a 5,8% da população, o que corresponde a 12 milhões de brasileiros. A cada 46 minutos alguém tira a própria vida no país. NÚMEROS IMPORTANTES Segundo o Centro de Valorização da Vida (CVV), um dos órgãos parceiros da campanha, em Jundiaí são registrados mensalmente 1,8 mil atendimentos na unidade. Uma das voluntárias do CVV de Jundiaí, Bernadete Amaral Carneiro, adianta que a procura entre os jovens tem aumentado muito, seja para abordar temas como depressão, solidão, relacionamentos ou questões dependência química. Ela acredita que na maioria das vezes os jovens não consegue dialogar com os pais. "Infelizmente as pessoas não conseguem ser ouvidas. E procuram a unidade para desabafar suas dores", diz Bernadete. Ainda de acordo com dados da Vigilância Epidemiológica e repassada pela UGPS, entre os óbitos de suicidas deste ano houve maior prevalência entre pessoas idosas. SERVIÇOS Os usuários de redes sociais serão convidados a postar em suas páginas o ícone do girassol para mostrar que estão dispostos a falar sobre o assunto #depressaosemtabu. Eles também poderão conhecer o site www.depressaosemtabu.com.br, que traz informações sobre o tema e orientações sobre a identificação de comportamentos de risco em pessoas próximas. Em Jundiaí, os atendimentos podem ser feitos em diversos órgãos, entre eles, nas UBSs, no CVV (188), HU, CAPS IJ (4522-0672), CAPS 2 (4521-1132) ou em outros órgãos de saúde. DESABAFO O JJ colheu alguns depoimentos de jovens que passaram pela dor e angústia de uma tentativa de suicídio. Mais do que coragem, eles tiveram a clareza de expor seus problemas e dizer que passar por um processo de depressão não é frescura: é preciso entender e ajudar. “Depois que minha mãe faleceu percebi que algo de errado estava acontecendo. Não queria falar com ninguém até que um dia eu fui a uma represa para pular na água, mas algo aconteceu na hora e desisti de pular. Naquele momento meu irmão estava passando ali perto me procurando e me levou para casa. Foi ai que começaram a cuidar de mim.” O jovem de 16 anos, que não será identificado, conta ainda que deixou uma carta se despedindo de todos e chorou muito quando voltou a lê-la, porém tentou suicídio novamente. “Na última vez tomei muitos remédios e fui internado. Foi muito doloroso para mim, mas não vou deixar isto acontecer nunca mais. Eu recebi ajuda e sei que muitas pessoas podem receber também. Sei que não é fácil, mas todos devem pedir ajuda”, diz o jovem. A depressão nem sempre pode ser explicada com palavras e é por isso que os jovens tendem a se isolar. Um dos primeiros sintomas é a mudança de comportamento. Foi assim com uma adolescente de 18 anos. Nada de conversas, apenas o silêncio e as automutilações. “Sempre tive vontade de me matar. Não queria fazer nada. Apenas uma vontade de morrer o tempo todo. Não falava muito com minha família, mas não sabia de onde vinha esta vontade de não fazer nada”, conta a adolescente que passa por tratamento e diz que nem o violão que gostava de tocar tem mais graça. “Penso em fazer faculdade o ano que vem, Ciências Sociais. Só quero me curar.” E um apelo que também faz outro jovem, de 17 anos. Ainda cursando o Ensino Médio ele conta que desde pequeno gostava de ficar quieto em casa. Nada fazia sentido, até que um dia tomou uma atitude drástica. “Eu fui até a lavanderia e amarrei uma corda no teto para me matar, mas não tive coragem”, desabafa. Ele mesmo procurou ajuda e com apoio dos pais, está confiante na recuperação. “Eu me sentia mal e não tinha vontade de nada.” Estes jovens passam por tratamento que une medicamentos, terapias em grupo, inclusive com os pais, e atividades. Ouvir é sempre o melhor remédio No Centro de Atenção Psicossocial para Infância e Juventude - Caps IJ, em 2018 foram atendidas 62 pessoas com registros de queixa de tentativa de suicídio ou de autoagressão: este ano já foram 75 atendimentos. A coordenadora da unidade, Janaina de Carvalho Santos Ermani, diz que não existe classe social quando a doença se manifesta. E toda atenção deve ser voltada também para a família. "É sempre importante procurar ajuda e evitar julgar esta pessoa que está doente”, orienta Janaína. A psicóloga Karen Scavacini, uma das palestras da 4ª edição do Palco da Cidade – encontro que abre reflexão sobre valorização da vida e o diálogo sobre “Suicídio: As Dores da Alma”, marcado para a próxima sexta-feira (13), comenta que há uma geração de jovens com dificuldade em lidar com as frustrações, e com poucos vínculos significativos. Isto se expressa no aumento dos transtornos mentais, automutilação e prevenção do suicídio. “Tenho a percepção de que o sofrimento jovem não é levado em conta. Há uma certa romantização da adolescência pelos pais e uma banalização do sentimento e intensidade do adolescente. Estamos carentes de diálogos”, alerta. Para ela, é preciso que pais, escola e familiares escutem o que o jovem tem a dizer, assim como validar o seu sofrimento e falar abertamente sobre questões de saúde mental. “Todos devem aprender sobre os sinais, riscos e como oferecer aju<CW-9>da. Ter uma educação socio-emocional ajuda o jovem a desenvolver resiliência e isso por sua vez vai influenciar em sua saúde mental de um modo positivo. Precisamos nos envolver, combater o bullying, aprender a usar as redes e a internet de modo saudável”, explica a psicóloga. A distribuição dos ingressos do evento começam dia 12 na bilheteria do Polytheama.

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