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Fortalecimento de vínculos auxilia na prevenção do suicídio

BÁRBARA NÓBREGA MANGIERI | 02/09/2018 | 21:00

Resiliência é uma característica que pode ser aprendida e aperfeiçoada. Na opinião do psiquiatra Ivo Pinfildi Neto, é essencial para prevenir que mais pessoas tentem tirar a própria vida. “Ser resiliente é suportar ou ser capaz de passar por dificuldades e extrair delas a força necessária para seguir adiante”, reflete.

Dar um significado à vida é parte crucial do desenvolvimento dessa característica, segundo o médico. “É preciso criar vínculos sólidos. A gente cada vez menos se apega às pessoas e às filosofias de vida. Isso dá um propósito ao ser humano”, diz.

A falta de sentido e de perspectiva é um sintoma que V.S. consegue identificar em sua história. A jovem de 25 anos tentou tirar a própria vida em fevereiro do ano passado. Ela já lidava com uma depressão diagnosticada há cinco anos, que tratava com terapia e medicamentos controlados, mas um deles a deixava muito agitada. “O médico trocou por outro remédio e, nessa fase de adaptação, comecei a ter ataques de pânico. Aí os pensamentos suicidas apareceram com mais frequência”, diz.

Ela confessa que às vezes questionava seus sintomas. “Convivo há anos com a depressão. Tenho familiares e amigos com quem posso falar abertamente sobre o assunto e, mesmo assim, minimizei a gravidade do problema”.
Pinfildi ressalta, porém, que a presença de uma doença mental não é pré-requisito para o pensamento ou a tentativa de suicídio. “O risco para quem sofre com um distúrbio é maior, mas as causas são multifatoriais. Uma situação pontual pode deixar a pessoa com a sensação desesperadora de que não há outra saída”, explica o médico.

NÚMEROS

Considerado um problema de saúde pública, o suicídio vem aumentando em todas as camadas da sociedade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma pessoa tira sua própria vida a cada 40 segundos no mundo. No Brasil, houve aumento de 15% nos últimos 12 anos. Só em Jundiaí, a média é de 20 suicídios por ano, segundo o Centro de Atenção Psicossocial (Caps).

Este ano, a cidade já notificou 10 casos, sendo oito homens e duas mulheres. Pinfildi, porém, ressalta que homens aparecem com mais frequência nas estatísticas porque costumam escolher métodos mais drásticos.

“O número de mulheres que tentam se matar é maior, ou seja, não tem um gênero que sofre mais”. O problema também não tem idade. “Entre os idosos, os números estão aumentando. Eles têm que lidar com questões relacionadas ao fim da vida e muitas vezes possuem uma doença crônica, o que aumenta o risco”, diz. Já entre os mais jovens, o suicídio é a segunda principal causa de morte e, para o psiquiatra, o uso irrestrito da tecnologia está relacionado.

“As respostas são muito imediatas e a autoestima pode ser afetada pelas relações virtuais, já que o cérebro deles ainda não está totalmente formado”, diz. “Eles são biologicamente mais vulneráveis e ficam sem recursos para lidar com a perda, a dor e a frustração”.
Os adultos também não estão imunes. Para Pinfildi, este grupo está tão focado em questões cotidianas que acaba perdendo conexões significativas. “Toda a energia e o foco estão direcionados às preocupações com segurança, aluguel, saúde, comida etc”, exemplifica. O propósito por trás das atividades desempenhadas se perde e as relações ficam em segundo plano. “Mas sem isso, ficamos sem chão quando ‘a casa cai’”, reflete. O fator comum entre todos os grupos, como se vê, é a falta de ferramentas emocionais para lidar com a dor.

DIÁLOGO COM O CVV

O Centro de Valorização da Vida (CVV) aposta no diálogo aberto e na escuta ativa como uma possível solução. “As pessoas precisam desabafar antes que o copo transborde e elas tomem uma atitude irreversível”, afirma a coordenadora do CVV Jundiaí, Maria Bernadete Amaral Carneiro. Por isso, a entidade atende ligações – de forma gratuita e anônima – através do número 188, de qualquer lugar do Brasil.

Segundo Bernadete, os 27 voluntários do CVV Jundiaí atendem cerca de 1.600 pessoas por mês, seja por telefone, chat online e e-mail. “São jovens, adultos e idosos que muitas vezes não têm a intenção de tirar a própria vida, mas estão passando por um momento difícil e não têm com quem conversar”, revela.

COMO AJUDAR

Todos os entrevistados são categóricos sobre a importância de escutar sem julgamentos. “Não diga o que se deve ou não fazer. Apenas seja alguém confiável para que a pessoa ponha suas angústias para fora”, afirma Bernadete.

Pinfildi ressalta que, ao abrir um canal de diálogo, você pode indicar que a pessoa busque ajuda profissional. “Às vezes o indivíduo não reconhece aquela dor como um problema de saúde”. Ele diz que falar de dor e sofrimento é um tabu que precisa ser derrubado.

A Prefeitura de Jundiaí e o CVV vão colocar o tema em debate durante o 3º Encontro de Valorização da Vida. O evento faz parte da programação da campanha Setembro Amarelo e será realizado dia 14 de setembro, no Teatro Polytheama.

 

 

DOUTOR IVO PINFILDI PSIQUIATRA

DOUTOR IVO PINFILDI
PSIQUIATRA


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