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Futuros médicos da FMJ fazem curso de Libras

COLABORAÇÃO DE MARIANA CHECONI | 02/06/2019 | 06:00

Imagine precisar de atendimento médico e não conseguir fazer com o que o profissional entenda o que está acontecendo. Essa é a situação que a maioria dos surdos enfrentam ao precisarem se consultar com profissionais da área da saúde. Pensando em toda a comunidade surda, que só no Brasil ultrapassa 9 milhões de pessoas, a Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ) oferece aos estudantes de Medicina o Curso de Libras (Língua Brasileira de Sinais) que tem como objetivo capacitar os futuros médicos no atendimento ao paciente surdo. De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Medicina, a iniciativa permite a preservação da privacidade e a melhoria no atendimento a essa população.

O curso está acontecendo desde o mês de março e o encerramento está marcado para amanhã (3), às 18h. Foram capacitados 26 estudantes e 2 funcionários do Hospital Universitário. O próximo Curso está previsto para ser oferecido em 2020.

Professora do curso e especializada em Libras, Valdinéia Aparecida do Nascimento considera a iniciativa de inserir Libras na FMJ algo muito importante. “A Libras é reconhecida como língua desde 2002 pela lei 10.436, contudo poucas eram as pessoas que tinham conhecimento sobre ela. A ideia surgiu para realmente proporcionar um atendimento mais humanizado aos pacientes surdos”, afirma.

A professora ressalta que o paciente surdo ao procurar atendimento deseja ter sua autonomia e privacidade respeitada. “É importante que o profissional da saúde saiba a língua de sinais porque nem sempre o paciente quer a presença de um intérprete ou familiar nos atendimentos. Nem sempre querem expor para as outras pessoas o que estão sentindo. Profissionais que saibam conversar com o paciente surdo fazem toda a diferença”, afirma.

Durante o curso foram trabalhados diversos sinais relacionados à saúde. “A metodologia destas aulas adota a estratégia comunicativa, então não são trabalhados sinais apenas, mas a cultura surda e possibilidades de situações reais a serem vivenciadas em diversos espaços”, explica Valdinéia.

Para os alunos da FMJ, o curso foi uma experiência que acrescentará muito no futuro da carreira.

Fabrício Miskulin, 19 anos, e Giovana Serra, 24 anos, no segundo e terceiro anos de faculdade, respectivamente, contam que o interesse surgiu principalmente para conseguir atender da melhor maneira possível seus futuros pacientes. “É um diferencial na consulta. Quando o paciente percebe que vai conseguir se comunicar com o médico, faz com que ele se sinta incluído”, diz Giovana.

Fabrício relata que o interesse pela Libras surgiu quando percebeu, ao ver um encontro de surdos, que a comunicação deles, embora sem nenhum som, era muito mais afetiva. “Eles sempre foram muito mais presentes. Eu via grupos de amigos que só ficavam no celular e não conversavam enquanto a conversa deles, por mais que não emitisse nenhum som, era muito mais virtuosa”, relata.

AUTONOMIA
Aceitos com suas características:

O educador físico Tiago Lino, 33 anos, é surdo. Conta que sempre encontrou dificuldades ao ser atendido em hospitais e consultas. “Minha mãe sempre ia comigo e falava aos médicos o que eu sentia. Muitas vezes os médicos não tem paciência com os surdos e isso dificulta ainda mais”, relata. Tiago não imagina um mundo onde todos os médicos consigam se comunicar com os pacientes sem ajuda de intérpretes. “Algo simples que se torna um diferencial para nós, surdos, é o símbolo da Língua de Sinais no jaleco dos médicos. Assim, só de bater o olho, sabemos se vamos conseguir nos comunicar”, explica.

Alguns termos:
A professora Valdinéia esclarece que alguns termos são utilizados de maneira errada pelas pessoas ou ofendem os surdos. “É errado falar ‘linguagem de sinais’ e ‘deficientes auditivos’, por exemplo. São termos que diminuem o surdo pois elesnão gostam de serem chamados de deficientes. Eles querem ser aceitos e incluídos, como qualquer outra pessoa. A surdez é uma característica e eles tem orgulho disso”, conta.

Para os alunos da FMJ, Fabrício Miskulin e Giovana Serra, o curso foi uma experiência que acrescentará muito à carreira deles.


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