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‘Há dificuldades para se interpretar o risco de suicídio’

ARIADNE GATTOLINI | 30/09/2018 | 09:00

No dia 14 de setembro, 1,2 mil pessoas lotaram o Teatro Polytheama para discutir com especialistas um tema cada vez mais comum na sociedade brasileira – o suicídio. No evento, promovido pela TVTec, o psiquiatra Neury Botega, da Unicamp, chamou a atenção por despertar no público a preocupação com os multifatores que levam ao suicídio, bem como alertar para a depressão. O psiquiatra está lançando o livro “A tristeza transforma, depressão paralisa” e concedeu posteriormente a seguinte entrevista ao JJ, reafirmando que há poucas opções na rede pública para o tratamento de transtornos mentais e afirmando que, na era das redes sociais, falta espaço para a solidariedade.

O Brasil tem 11 mil casos de suicídio ao ano. Porém, este número pode estar subnotificado. A maioria, 79%, de homens. Como detectar que uma pessoa próxima pode estar vulnerável ao suicídio?
Temos essa dificuldade de perceber o risco de suicídio, ou porque algumas pessoas que acabam por tirar a própria vida não dão sinais ou porque, se os dão, não conseguimos interpretá-los como indicação de perigo. Pensar que uma pessoa querida poderá se matar é tão assustador que a ideia não passa pela nossa cabeça. De modo geral, aconselho a reparar em mudanças de comportamento, como tristeza, angústia, retraimento social, acessos de raiva, diminuição no rendimento escolar ou profissional, postagens com temática relacionada à morte e à falta de sentido da vida, bem como levar a sério ameaças de suicídio.

Como o suicídio é causado por multifatores, quando devemos começar a nos preocupar e buscar atendimento?
Principalmente quando reparamos em um dos sinais acima. Acima, acrescento um quadro com sinais de risco em adolescentes. Muitos desses sinais são inespecíficos, pois também aparecem quando do surgimento de alguns transtornos mentais que podem ter início na adolescência (esquizofrenia, depressão, drogadição e transtorno afetivo bipolar).

Qual a diferença entre depressão e tristeza? Qual delas leva ao suicídio?
A tristeza é como a febre: sinaliza que algo não está bem, que estamos sofrendo por uma perda ou que há algo que desejamos mudar para sermos mais felizes. Já a depressão é uma doença que pode vir com tristeza ou com a sensação de vazio angustiante, falta de energia, e incapacidade de ter prazer com coisas que antes nos eram agradáveis. A depressão dá uma sensação de estranheza e de medo, parece que algo muito essencial mudou dentro da gente. Ao contrário da tristeza, dura a maior parte do tempo e por várias semanas, até meses. A tristeza raramente leva a um suicídio. A depressão é o transtorno mental mais associado ao suicídio.

As pessoas creem que é impossível passar tristezas, sofrerem perdas e estarem longe do “mundo ideal”? De que forma a idealização da vida, da sociedade atual, as impedem de  entender que há espaço para se sofrer?
Estamos vivendo em uma sociedade menos solidária. Viver mergulhado nas redes sociais é muito diferente de ter amigos e neles encontrar apoio. Nas redes sociais, as fotos, na maioria das vezes, são de gente sorrindo, “bonita na foto”. No entanto, é em período de tristeza que podemos refletir e tomar decisões mais profundas e significativas para a vida. É preciso olhar pra dentro, suportar certa dose de incompreensão, até que surjam pensamentos mais calmos e transformadores.

Como a sociedade deve auxiliar no processo de escuta destas pessoas?
Não temos os mesmos espaços de antes, representados pela família e pelos encontros religiosos, por exemplo. Então é preciso que pessoas que se encontram na linha de frente (professores, agentes de saúde, membros de forças de segurança, ministros religiosos) tenham a capacidade de detectar e acolher pessoas que estão enfrentando crises. Em segundo lugar, precisamos criar serviços e capacitar pessoas que possam ajudar alguém que passe por uma crise depressiva, tanto na rede de saúde como nas escolas.

Há atendimento público à disposição para quem sofre e precisa de intervenção psiquiátrica?
Atualmente o sistema público de saúde está sofrendo muito com as dificuldades políticas e econômicas pelas quais nosso país passa. A área de saúde mental é crítica, principalmente para atender casos agudos e crises humanas.

Dr. Neury Botega fala à plateia do Polytheama sobre depressão e tristeza

Dr. Neury Botega fala à plateia do Polytheama sobre depressão e tristeza

 

 


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