Jundiaí

Idosos no mercado de trabalho não são exceção

EMPREGO NA TERCEIRA IDADE MAURICIO FERREIRA
Crédito: Reprodução/Internet
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que pessoas idosas têm 60 anos ou mais. No Brasil, esta parcela da população representa cerca de 16% da população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E, parte desta parcela, com mais de 34 milhões de pessoas, ainda trabalha, com um número que saltou de 6,3% no primeiro trimestre de 2012 para 8,3% no mesmo período de 2020. No 1º trimestre deste ano as pessoas idosas representavam 20,1% das pessoas que podem trabalhar no Brasil. Além dos aposentados que continuam na ativa, há também os idosos que ainda não se aposentaram. No Brasil, há mais de 1 milhão de pessoas na fila do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) que aguardam por auxílio-doença, pensões e aposentadorias. Além deste contingente, em que a aposentadoria mal paga as contas básicas, muitos idosos preferem ficar ativos para se sentirem úteis e com a cabeça em dia. As vagas com carteira assinada representavam 27,6% do total nesse grupo populacional no primeiro trimestre de 2016, índice que diminuiu para 26,6% no primeiro trimestre de 2018. Ou seja, com o aumento desta faixa etária ao longo do ano no Brasil, o trabalho informal cresceu para esta população. NA ATIVA Formada em letras, Sandra Vicente Corassa, de 65 anos, mesmo aposentada, trabalhou durante nove anos. “Eu trabalhava em uma empresa de Jundiaí, era secretária da diretoria e me aposentei em 1997, mas continuei trabalhando lá até 2000. Voltei a trabalhar em 2014. Fui me tratar em uma clínica e me convidaram para trabalhar lá na recepção. Trabalhei por seis anos e fui dispensada em maio deste ano porque sou do grupo de risco e não podia voltar à ativa.” Mas Sandra não pretende ficar parada, mesmo não pretendendo mais trabalhar fora de casa. Agora ela não pode sair de casa e compra tudo pela internet, mas, quando puder, pretende montar uma confecção de roupas para animais de estimação em casa, a Aquecendo o Cão. “Tenho 65 anos, meu marido tem 68 e nossos filhos já não têm dependência. Mas me planejo para um projeto social para cães e gatos. O que eu compro é pela internet, não estou saindo de casa, mas quero produzir roupas para pets. Só não comecei porque comprar os materiais pela internet não é igual comprar pessoalmente.” Sandra conta ainda que neste período de quarentena sente falta da ativa. “Trabalhava principalmente para não ficar parada. Estou em casa há três meses e estou desesperada. Nos 14 anos que fiquei sem trabalhar, fui voluntária. Então trabalhava, mesmo aposentada, para não ficar parada, embora o salário ajude, já que a aposentadoria não é tão alta.” Trabalhando no Sebo Jundiaí, o contador aposentado Antonio Fernandes Netto, de 63 anos, diz que continua na ativa também para não ficar parado e por gostar do sebo. “Já sou aposentado, continuei porque é a cabeça de cada um, enquanto o meu corpo atende a cabeça, eu posso trabalhar. E também para não ficar no ostracismo, parado em casa sem fazer nada. Você trabalhar em sebo é a coisa mais maravilhosa, nunca tive essa experiência, mas é dinâmico, você vê coisas novas, livros interessantes, conversa com as pessoas.” “É fascinante, quando você vê livros, revistas de quando você era criança, do ano em que você nasceu, músicas que você ouvia, fitas cassete, que são muito do meu tempo. Você volta num tempo que não retorna mais. Pretendo continuar trabalhando, enquanto tiver forças, continuo trabalhando”, diz ele sobre ter encontrado mais esta experiência, mesmo que idoso, mas em tempo de se maravilhar. CONTRATA-SE Para a diretora de Recursos Humanos do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) Jundiaí, Vânia Mazzoni, pessoas com mais de 60 anos, mesmo aposentadas, podem continuar no mercado, pois “legalmente não existem impeditivos para que a pessoa trabalhe. Existem atividades informais que podem garantir renda e ocupação. Cabe a cada um analisar o que está dentro de suas expectativas e aptidões e entender qual a viabilidade financeira, se esse for o objetivo.” “Percebo que a motivação financeira é grande para que alguns profissionais busquem retornar ao mercado. Contudo a busca por realização pessoal também é um forte apelo. Sentir-se útil e ativo faz grande diferença, e a remuneração agrega valor à jornada”, diz Vânia sobre as motivações para que pessoas aposentadas permaneçam trabalhando. Vânia diz que no mercado profissional não exclui pessoas idosas, podendo haver oportunidades a elas. “Entendo que para algumas frentes de atuação exista, sim, oportunidades para idosos e aposentados, porém talvez seja necessário redirecionar sua carreira profissional.” Inclusive, algumas empresas dão preferência a estes profissionais por características da faixa etária. “Apostam em sua responsabilidade, competência e comprometimento. Além disso, algumas empresas buscam resgatar a contribuição que o conhecimento prático que um profissional neste momento da vida tenha a oferecer.” Em contrapartida, o preconceito, sofrido por muitos idosos no mercado de trabalho, vem diminuindo, segundo Vânia. “Percebo que atualmente há menos preconceito. Até porque a idade hoje é diferente da idade de tempos atrás. Tivemos uma extensão de tempo para uma pessoa ser considerada idosa. Os conceitos mudaram, a jovialidade hoje é melhor percebida e está em alta e o mercado acompanha essa onda.” Justamente acompanhando esta onda, Maurício Ferreira, professor e proprietário do Sebo Jundiaí, além de empregar o Antonio, busca mais uma pessoa aposentada para o trabalho no acervo. No anúncio publicado por ele, mesmo que voltada para pessoas idosas, a vaga tem exigências desde atendimento ao público e organização do acervo, até informática e cadastro de produtos na internet. Ou seja, ele procura pessoas atualizadas com a tecnologia. Além disto, há preferência por bibliotecários e conhecedores de literatura. Sobre trabalhar com pessoas mais experientes, Maurício diz que acha a faixa etária avançada mais responsável, de modo geral. “Eu acho ótimo, já tive várias experiências, teve um senhor que trabalhou comigo por oito anos. São responsáveis, pontuais e conseguem alinhar a experiência profissional e a experiência de vida. No sebo a gente sempre trabalha a sustentabilidade e a inclusão”, diz ele sobre a importância de empregar pessoas fora do mercado. Já sobre a procura dos idosos por trabalho, Maurício conta que “os motivos são muitos, às vezes a aposentadoria não paga nem o plano de saúde, para se sentirem úteis também. Estou impressionado com o tanto de currículos que recebi, tem gente com pós-graduação querendo trabalhar”, comenta.

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