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Prematuros exigem cuidados redobrados

SIMONE OLIVEIRA | 04/08/2019 | 07:00

Por volta de 3 milhões de crianças nascem no país por ano e, deste total, 11% são prematuras, o que significa 330 mil nascidas abaixo de 37 semanas. Em São Paulo, o número de nascimentos é de pelo menos 600 mil mantendo a mesma proporção de prematuros, números divulgados pela Sociedade de Pediatria de São Paulo.

Em Jundiaí, segundo dados do Hospital Universitário (HU), em 2018 foram 335 partos por mês, sendo 8,93% deles de prematuros e em 2019 esta média está em 311 partos com 9,84%.

Mesmo sendo números abaixo da média nacional, ainda há muito a se fazer, especialmente quando a criança nasce entre a 25ª e a 27ª semana de gestação, considerados prematuros extremos.

Foi o que ocorreu com a pequena Isabella, que precisou ficar na UTI por 102 dias depois de nascer antes mesmo de sua mãe completar seis meses de gestação. Ela nasceu com 25 semanas de gestação pesando 560 gramas.

A coordenadora médica da Neonatologia do HU, Aline Nunes Neves Ranieri, diz que nestes casos os cuidados são ainda maiores, uma vez que a chance de sobrevida é pequena. Para que Isabella pudesse voltar para casa, a mãe teve uma série de treinamentos. Foi o caso mais raro do HU dos últimos 15 anos.

“É preciso total cuidado com a higiene deste bebê, a manipulação do alimento, que significa a oferta da dieta e de vitaminas, além do tempo certo no banho de sol e do cuidado no manuseio do oxigênio porque ela ainda necessita do cateter nasal. Mesmo assim, a família vai receber total apoio de uma equipe domiciliar para as orientações necessárias”, explica a médica.

Mas para quem ainda aguarda a alta médica, a angustia de ter um filho na UTI, ainda mais quando se trata de um prematuro, é ainda maior. As horas se transformam em dias. É o caso de Daiane Cristina Godoy Pereira, de 28 anos, que aguarda ansiosa para levar a filha Sarah Vitória para casa.

Sarah nasceu com apenas 28 semanas de gestação, pesando 910 gramas e há 56 dias ela segue internada para recuperar o peso e fortalecer a imunidade. “Estamos ansiosos para levá-la para casa porque seu quarto já está pronto. Mas, só o fato de eu conseguir amamentá-la, mesmo em quantidade pequena, já me alivia. Eu acredito que logo ela estará em casa”, diz Daiane, que reveza as visitas com o marido Adenilson Aparecido Pereira.

Daiane conta que, na 22ª semana de gestação, teve o que os médicos chamam de insuficiência istmocervical, uma doença que oferece falha no sistema oclusivo do útero, quer dizer, quando o colo do útero é mais fraco ou curto que o normal e tende a dilatar e afinar sem que haja contrações ou dor, só pelo peso do bebê podendo causar abortos ou partos prematuros.

“Com ajuda médica consegui chegar a 28ª semana, mas as dores foram mais fortes e o parto teve que acontecer. Acredito que mais uns dias ela saia da UTI e vá para o quarto, estamos todos ansiosos com isto. A ansiedade e o medo de perdê-la já passou. Agora. eu e meu marido vamos apenas curtí-la.”

CUIDADOS
A coordenadora Aline Ranieri reforça que, após o nascimento, o bebê prematuro fica internado na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN), onde recebe cuidados especializados, como incubadoras, uso de oxigênio através de aparelhos de ventilação mecânica, alimentação por sonda e atendimento de uma equipe multidisciplinar composta por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e fonoaudiólogos. ‘A unidade é um serviço de alto risco onde os profissionais estão permanentemente monitorando os recém-nascidos. É um ambiente silencioso, com temperatura e iluminação apropriadas.

Temos que deixar claro que são vários perfis de mulheres que podem ter um prematuro, mas quando falamos em tabagismo, gestante adolescente, uso constante de álcool ou drogas ilícitas e claro quando há desenvolvimento de algumas doenças durante a gestação tais como a hipertensão arterial, diabetes, infecções ou até um descolamento prematuro de placenta”, explica.

Mesmo com alta médica, todo cuidado é pouco para qualquer prematuro. Segundo explica Aline, há algumas sequelas que a prematuridade pode causar, entre elas, retinopatia da prematuridade (crescimento anormal dos vasos sanguíneos do olho), broncodisplasia com dependência de oxigênio (bebês que fizeram uso de oxigênio por pulmões muito imaturos), hemorragia intraventricular (sangramentos no cérebro) que pode gerar atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, deficiência intelectual ou até paralisia cerebral.

“Todos os bebês que nascem prematuros deverão continuar fazendo seguimento ambulatorial com uma equipe multiprofissional após a alta hospitalar por muitos anos. É muito importante realizar exames periódicos, pois eles podem detectar possíveis alterações e serem minimizadas com tratamento adequado”, comenta.

SOPRO DE VIDA
Aos 36 anos, a manicure Ellen Cristina de Aguiar sentiu na pele que a vida é realmente um sopro. Depois da gestação de Renan (18 anos) e do Gabriel (14 anos), ela engravidou da pequena Isabella, mas a gestação não foi como planejada e, antes de completar seis meses na barriga da mãe, ela resolveu nascer, com apenas 560 gramas e 31 centímetros.

Ellen conta que começou a passar mal e sentir dores e náuseas. Foi diagnosticada com síndrome de Hellp, abreviação de ‘hemólise, enzimas hepáticas elevadas, baixa contagem de plaquetas’, que se desenvolve normalmente antes da 37ª semana de gravidez. A única chance para ela e o bebê era o parto imediato.

“Fui direto para o hospital e o médico disse que a única saída seria o parto, mesmo com risco para minha vida e a do bebê. Naquela hora, eu achei que a minha vida e da minha filha tinham acabado, mas Deus é maior”, diz Ellen, lembrando da recuperação.

Isabella ficou na incubadora do HU por 102 dias para recuperar peso e fortalecer o pulmão. No último final de semana, voltou para casa e passou a receber os cuidados e o carinho de toda a família. “Como ela ficou muito tempo se alimentando por sonda, o meu leite secou. Agora precisa de mamadeira. Tem utilizado o tubo de oxigênio e por isso estamos tomando cuidado com a higiene e com a imunidade dela”, comenta.

A chegada de Isabella na casa tem deixado o ambiente mais alegre e esperançoso. Os irmãos, se tornaram dois verdadeiros guardiões. “Ela é realmente um milagre e tenho certeza que, daqui para frente, será só alegria. Eu espero que as mães que estão vivendo este momento, como eu vivi, que tenham fé e acreditem no retorno rápido de seus filhos.”


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