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Menores expostos

MARIA CRISTINA CASTILHO | 05/09/2019 | 07:30

Menores descobertos. Filhos do desamparo e de pais desfavorecidos também. Crianças brincam em minhas proximidades. Aproximam-se do carrinho de bonecas e pegam uma delas para colocar nele. Primeiro trocam a roupa. Não se importam em ajeitar os cabelos embaraçados e muito menos em colocar a calcinha. Jogam-na no carrinho, de qualquer jeito, as pernas abertas, parte da saia levantada e buscam outro brinquedo que lhes atraia a atenção.

Que triste a boneca ali descartada. Questiono-me: seria um alerta de que ficam expostas também, sem as partes íntimas cobertas? Ou se acostumaram a ter desrespeitadas suas emoções, desprovidas de olhar cuidador? Desprezo pelo corpo desprotegido, que pode ser tocado a bel-prazer para saciar taras do entorno?

Lembro-me de algumas reflexões em palestras das quais participei sobre a prevenção ao abuso sexual infantojuvenil e promiscuidade, que fragilizam pessoas para o comércio lúgubre do sexo. Naquela época, falava-se bastante a respeito de ensinar as crianças, desde a mais tenra idade, a não permitir que tateiem nos lugares cobertos de seu corpo. Mas se esses lugares estão à mostra ou próximos de estar à mostra pelas situações de miséria que não permitem adquirir roupas íntimas? Sei de muitos casos assim. De moedas contadas, opta-se pela roupa ou calçado em lugar de peças íntimas. Para olhares pervertidos, um “convite” à exploração da carne de meninos e meninas inocentes; pequeninos para breves instantes.

Pudor também importa.

Em brechós populares e doações de roupas, quase não se encontra peças íntimas de crianças.
Costuma ser doloroso o futuro desse povo miúdo de corpo desvendado. Recordo-me do poema “Pequena crônica policial” de Mário Quintana, tão verdadeiro: “Jazia no chão, sem vida, /E estava toda pintada!(…)Com fria curiosidade,/Vinha gente a espiar-lhe a cara,/As fundas marcas da idade,/Das canseiras, da bebida…/Triste da mulher perdida/ Que um marinheiro esfaqueara!/Vieram uns homens de branco, Foi levada ao necrotério./E enquanto abriam, na mesa,/ O seu corpo sem mistério,/Que linda e alegre menina/ Entrou correndo no céu?!/Lá continuou como era/Antes que o mundo lhe desse/ A sua maldita sina:/Sem nada saber da vida,/De vícios ou de perigos,/Sem nada saber de nada…/Com a sua trança comprida,/Os seus sonhos de menina,/Os seus sapatos antigos!”
É isso!

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE e professora e cronista.

Associação Maria de Magdala – Pastoral da Mulher, sob a presidência da nossa amiga Maria Cristina Castilho Andrade, nos avisando que termina hoje o bazar da entidade, com roupas e sapatos com preços a partir dos R$ 2. O encontro será na sede da entidade, na rua Senador Fonseca, 517, das 8h30 às 17h


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