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Mesmo diante da violência, elas dão exemplos de superação

Kátia Appolinário | 08/03/2020 | 05:00

No Dia Internacional da Mulher, não há como fechar os olhos para a violência enfrentada pelo público feminino, principalmente quando falamos de um país em que 13 mulheres são mortas por dia, segundo o Atlas da Violência de 2019. Neste mesmo período foram registrados no Interior do Estado, 104 casos de feminicídio segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP). Em janeiro deste ano já foram sete registros contabilizados, mas este número pode ser bem maior.

Em Jundiaí, segundo dados da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), entre 2017 e 2019 foram 19 casos de feminicídio. Além destes casos que chegam às vias de fato, há ainda registros de ameaças, maus-tratos, estupros consumados, lesões corporais e outros crimes: só no ano passado foram pelo menos 1,3 mil registros que chegaram à DDM.

Infelizmente há ocorrências que sequer chegam ao conhecimento da Justiça. É o caso da professora Fernanda Mendes, de 35 anos. Ela passou por momentos difíceis em um relacionamento abusivo. “Vivi violência patrimonial. Ele quebrou meu carro, meu celular, roubava dinheiro para drogas e me deixou em uma situação financeira complicada, mas mesmo assim eu achava que podia salvar a vida deste homem”, relembra.

Além da violência patrimonial, Fernanda também passou por agressões pontuais. “Não cheguei a sofrer nada brutal, mas ele me empurrava e eu sabia que em um ciclo de violência isso poderia evoluir para algo pior”, conta.

Em busca de uma nova vida, ela foi atrás de seus direitos e procurou por ajuda para romper este laço, que se tornou um nó. “No começo me senti sozinha, mas quando você consegue finalmente respirar, você se dá conta do quanto estava sendo sufocada”, confirma aliviada.

Com o intuito de auxiliar outras mulheres que passaram por situações semelhantes, Fernanda juntou-se a outras duas mulheres e fundou a Rede Valentes, coletivo que tem o intuito de aconselhar o público feminino em situação de vulnerabilidade por meio do acolhimento, empatia e prática da sonoridade.

Além da Rede Valentes, as Promotoras Legais Públicas realizam um trabalho semelhante de acolhimento. A professora Rani Mello, de 30 anos, decidiu juntar-se para ajudar outras mulheres. “O curso é de formação popular feminista e busca informar as mulheres sobre seus direitos para que possam serem multiplicadoras desse conhecimento”, explica.

A DDM de Jundiaí ainda registrou em 2019 casos de crimes contra o patrimônio (6 ) e contra a honra (508 ).

ALÉM DA AGRESSÃO

O relacionamento abusivo é apenas um dos desafios enfrentados pelo público feminino. O preconceito, a desigualdade no mercado de trabalho e a falta de acesso a direitos básicos dos cidadãos também são enfrentamentos femininos diários.

A cozinheira Élide Aparecida Alves de Proença Merfert, de 63 anos, foi criada por terceiros e teve que aprender sozinha os macetes da vida. “Mãe aos 19 anos, conheci um estrangeiro, me casei e fui morar no exterior. Passei por problemas, fiquei solteira, desempregada e precisei voltar para o Brasil”, conta.

De volta ao país, Élide se relacionou com um homem envolvido com tráfico de drogas, e por conta disso, mesmo inocente foi detida. “Fui até o submundo do crack e vivi o pior que pode acontecer na vida de uma mulher: a prostituição”, compartilha.

Anos depois, livre e inocentada, Élide resolveu recomeçar e recorreu ao auxílio dos órgãos públicos. “Fui até uma casa de apoio, tomei um banho, troquei de roupa e dei início a minha nova jornada. Dormi na estação ferroviária por várias noites, vendi bala no semáforo, almocei por dias no Bom Prato para economizar dinheiro. Hoje sou cozinheira e estou limpa das drogas, mas isso tudo graças a todo o apoio que eu recebi”, enfatiza.

Apoio importante que a jovem mãe Sônia (nome fictício), de 26 anos, encontrou em um abrigo. Ela conta que, para ela, o ano não começou da melhor forma. Sem ter como pagar o aluguel, ela foi despejada de sua casa com um filho recém-nascido e foi parar nas ruas com o marido. Para sua surpresa, neste período, acabou engravidando do segundo filho. “Fui muito julgada por engravidar novamente na situação em que eu estava, mas foi algo acidental, não havia o que fazer. Tive muito medo, mas fui acolhida pelo Centro Terapêutico Educacional Cristão (CTEC II)”, conta.

Após o acolhimento e prestes a dar a luz ao segundo filho, a vida de Sônia mudou. “Meu marido conseguiu um trabalho e já temos onde dormir, mas meu maior sonho ainda é conquistar uma casa própria”, afirma.

O Centro Terapêutico Educacional Cristão (CTEC), é uma organização independente que possui uma parceria com a Prefeitura de Jundiaí com o intuito de receber munícipes desabrigados. A coordenadora pedagógica do CTEC II, Viviane Laurentino Chaves, auxilia aqueles que chegam até o centro. “Normalmente recebemos pessoas encaminhadas pelo Centro POP e auxiliamos com acompanhamento psicológico, consultas médicas, expedição de documentos e até reinserção no mercado de trabalho”, explica.


Link original: https://www.jj.com.br/jundiai/mesmo-diante-da-violencia-elas-dao-exemplos-de-superacao/

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