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Mulher nenhuma gosta de apanhar, ela só precisa de ajuda

Fábio Estevam | 26/04/2020 | 10:30

Jundiaí registra todos os dias de três a quatro casos de agressão contra a mulher, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP). Já em todo o Brasil os índices são ainda mais alarmantes: trata de uma mulher agredida a cada quatro minutos. E é muito comum estar entre eles situações em que a vítima relata já ter sofrido agressões praticadas pelo mesmo autor, o marido ou namorado, mais de uma vez.

Casos como o que ocorreu no último dia 18, em que uma moradora do bairro Cecap foi agredida depois de sentir pena do marido ao colocar ele para fora de casa. Ela o convidou para morar junto novamente, mesmo tendo um grande histórico de agressões, segundo informou no Boletim de Ocorrência. Mais uma vez ela foi agredida.

Mas qual o motivo de ela sentir pena do companheiro? Por que o chamou de volta sabendo que poderia ser agredida novamente? A culpa por ter apanhado, então, é dela? Seria ela uma ‘mulher de malandro’, como popularmente as pessoas chamam aquelas mulheres que são agredidas e mesmo assim voltam com seus agressores.

O Jornal de Jundiaí conversou com a psicóloga Helen Precila da Silva, de 31 anos, pós-graduada em terapia de casal, para responder a essas perguntas. E segundo ela, na grande maioria dos casos a sujeição em que a mulher se coloca a um relacionamento agressivo está ligado à sua infância. “Muitas vezes essa mulher vítima de violência praticada por um marido com histórico agressivo também viu o mesmo cenário em sua infância, geralmente no trato do pai com a mãe e, inconscientemente, absorveu aquele modelo de relacionamento e de marido, para ela. Quando ela se torna adulta, o único modelo de homem em seu repertório é o abusador. Não porque ela queira, mas porque é o único modelo que ela conhece, o único exemplo que ela teve”, disse ela.

E completa. “A mulher acaba inconscientemente escolhendo alguém com as mesmas características, com o mesmo perfil, ainda que num primeiro momento o homem com quem ela vai se relacionar, se apresente como uma pessoa boazinha”.

E dessa forma, conforme explicou a psicóloga, ela acaba se submetendo ao relacionamento conturbado porque, de uma forma ou de outra, aquilo para ela é normal, é a única forma de relacionamento que ela conhece.

REFÉM

Evidentemente que, segundo Helen, nem toda mulher que, quando adulta, se submete a um relacionamento ácido, também assistiu a isso na infância. Muitas vezes ela teve bons exemplos, um pai respeitador e uma mãe também exemplar, porém acabou se envolvendo com um homem abusador, que vinha enrustindo seu comportamento agressivo.

“Ele vai minar a vida dela por conta de ser sentimento de posse, obsessivo. Vai procurar um ponto de vulnerabilidade nela para fazê-la refém, como começar a impedí-la de sair com as amigas, dizendo que com ele é mais legal. Ele implica com a rouba que ela usa, manipula a vítima. Trata de uma co-dependência afetiva, social, em que ela perde os amigos e se distância da família. Quando ela precisar de ajuda os amigos já não estarão mais à disposição, a família estará distante, e ela estará mais fraca. E ele, que a tornou fraca, estará mais forte. Nesse caso a mulher se apaixonou pelo homem com um tipo de personalidade, mas acabou descobrindo no mesmo homem, um abusador”.

 

Comentários machistas assustam

“Bem feito, tem que apanhar mesmo pra ver se aprende”; “que mulher burra, parece mulher de malandro, tem que apanhar mesmo”; apanhou e voltou com ele? Tem que apanhar para largar mão de ser burra”.

Esses foram alguns dos comentários feitos por internautas em matérias recentes feitas pelo Jornal de Jundiaí sobre casos de agressão na cidade. E foram feitos, não apenas por homens, mas também por mulheres, aliás mulheres.

Para a psicóloga Helen Precila é uma situação delicada. “As pessoas julgam sem saber o que está por trás daquela agressão, daquela situação. Não sabem pelo que essa vítima já passou ou está passando. Ela muitas vezes também se submete aquilo para não ver o filho, criança, sofrer, em caso de separação. Também existe, em muitos casos, a dependência financeira, as ameaças de que se sair de casa, algo ruim pode acontecer”, comentou Helen.

E completa. “Então quando as pessoas soltam esses comentários machistas, esses julgamentos, elas apenas estão atribuindo à mulher a culpa <CW-1>pela agressão, que não é dela. É fácil julgar porque ninguém está na pele da vítima, não vive em seu mundo. Então trata-se de uma situação delicada”, comentou a psicóloga.

 

É possível deixar de buscar um relacionamento agressivo

Segundo a psicóloga Helen Precila, apesar de trazer consigo os parâmetros horríveis de relacionamento abusivo, que teve como exemplo em sua infância, é possível de a mulher se livrar disso. Não das lembranças, claro, mas de inconscientemente escolher parceiros com perfil agressivo enrustido.

Para ela, o tratamento é a melhor opção. “É importante que ela trate disso psicologicamente, com um profissional de confiança dela. A mulher não é culpada das agressões que sofre e tampouco por ter escolhido um relacionamento abusivo. Num caso ela escolheu inconscientemente. No outro acabou descobrindo depois e, para todos os casos, existem saídas e esta saída é o tratamento”.


Link original: https://www.jj.com.br/jundiai/mulher-nenhuma-gosta-de-apanhar-ela-so-precisa-de-ajuda/
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