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Não é só a falta de seta que congestiona o trânsito jundiaiense

Édi Gomes | 15/03/2020 | 05:22

É óbvio que esta falha não é privilégio de quem mora em Jundiaí, mas é incrível como a fama persegue quem é nativo da cidade. O fato é que além desta particularidade, a alta velocidade e a falta de gentileza causam reações emocionais e físicas.

Neste caso, resultam em colisões e atropelamentos. Seja por imprudência ou por não respeitarem as leis básicas da convivência e principalmente do trânsito, mas, de onde vem esta fama?

Não há registro histórico que desvende tal mistério. As hipóteses vão além dos buracos das ruas urbanas, sinalização deficiente ou falta de fiscais de trânsito. Começa pelo comportamento, conforme explica a psicóloga Érica Cornacchione. “Existe a questão da insegurança pessoal fazendo com que o motorista projete rigidez em situações simples, como negar passagem ao outro condutor”, comenta.

A psicóloga explica que o indivíduo pode ter um comportamento introspectivo em outros ambientes, como em sua casa ou trabalho, porém é no trânsito que ele dá vazão à insegurança se transformando em um personagem forte, dono das ruas, sem ligar para o espaço de uso comum. “Não é só a falta de usar a seta. O motorista, lembrando que não é privilégio apenas do jundiaiense, tenta tirar vantagens de passar à frente dos outros motoristas, quase como a sensação do prazer descrita pelo psicanalista Sigmund Freud. Ele busca instintiva de forma a satisfazer as necessidades”, disse.

Neste caso, a necessidade é o de se firmar como dono da situação. “Furando filas, por exemplo, para mostrar como ‘sou especial’ ou andando em alta velocidade. Este tipo de motorista se acha o ‘alecrim do campo’, mas no fundo, com atitudes que lembram o machismo, tenta esconder a sua fragilidade. O condutor, independente se é de Jundiaí ou de fora, precisa se conscientizar que o outro também tem necessidades. Respeitar o princípio social”, explica a psicóloga.

EDUCAÇÃO
É na prática que o discurso analítico faz a compreensão ficar tensa. A dificuldade, além do uso do bom senso em usar os recursos obrigatórios para boa circulação, é também aplicar a gentileza no trânsito. Esta consideração é da especialista em mobilidade urbana Regina Romão. Há 19 anos ela estuda e implanta projetos para melhorar a vida dos condutores.

“Trabalhei como secretária e diretora de transportes em várias cidades e posso afirmar que a falta do uso de seta não é uma particularidade do jundiaiense. Outros fatores preocupantes são o excesso da velocidade e o comportamento dos pedestres. Eles são resistentes em utilizar a faixa de travessia ou simplesmente atravessar em locais apropriados. Além da educação também há o uso indevido de aparelhos celulares, responsáveis por muitos acidentes”, explica Regina Romão.

Um dos recursos que dá resultado, segundo a especialista, é a fiscalização, além da conscientização feita com as crianças uma vez que elas são fiscais presentes e exigem que os pais cumpram a legislação.
“Nas cidades em que fiz a gestão de trânsito, eu desenvolvi projetos para educação em escolas. Os alunos tornam-se agentes multiplicadores e levam para as suas casas o que aprenderam. Eles exigem dos pais o respeito às leis”, argumenta.

NA PRÁTICA
Quando a situação sai do campo emocional e técnico e chega às ruas, a situação muda de figura, principalmente quando o condutor nasceu na Capital, conhecida pela facilidade em dirigir e pelo respeito entre condutores, e se muda para cidades pequenas, onde o comportamento no trânsito é diferente.

É o caso de Ralison de Andrade Barros, motorista de aplicativo, que se mudou de São Paulo para Cabreúva, mas tem uma rotina intensa nas ruas de Jundiaí. Ele sente na pele o comportamento não recomendado de alguns motoristas da cidade. “A cada 10 motoristas, um utiliza a seta na cidade. Falta, além da educação do condutor, fiscalização. A presença do agente de trânsito poderia inibir os abusos”, acredita.

Jucimara Vetore Maria Teixeira trabalha como motorista de aplicativo há alguns meses e destaca a falta de respeito de alguns motoristas locais. Nascida em Jundiaí, sua rotina atrás do volante é de muitos anos. Ela trabalhava para uma empresa produtora de refrigerantes e visitava cinco cidades. Chegava a rodar diariamente entre 300 e 400 quilômetros e avalia que o problema de trânsito em Jundiaí não é somente a questão habilidade. É falta de respeito. “O motorista não se coloca no lugar do outro. Param em fila dupla, avisam que é só por dois minutos, mas travam o fluxo”, comenta.

Ela se considera uma motorista que pratica a direção defensiva e transmite isso com quem está conduzindo. “As pessoas elogiam este meu comportamento. Tenho consciência em dirigir sempre prestando atenção no caminho e na atitudes dos demais motoristas. Dirijo muito em São Paulo. Lá é outra cultura no trânsito, pois a seta não é acessório. É usada. Eu tenho esperança que vai melhorar a consciência do jundiaiense”, finaliza.

AÇÃO E CONSEQUÊNCIA
Falar da maneira de dirigir do jundiaiense esbarra na questão da ação e reação. A falta de seta, excesso de velocidade, uso indevido do celular podem e muitas vezes causam acidentes. A estatística prova de que houve uma redução gradativa de óbitos nos últimos três anos na cidade de Jundiaí. Em janeiro, o ano começou com três vítimas fatais no trânsito jundiaiense, segundo dados do Infosiga, órgão do governo estadual que monitora os casos de acidentes com mortes. Número ligeiramente menor em relação a 2018, que registrou quatro óbitos.

Em 2017 foram registradas 97 vítimas. Em 2018, o número caiu para 66, mais da metade deles (53%) envolvendo motociclistas. Em 2019 foram 65 perdas, 26 delas envolvendo condutores de motocicletas.

RADARES
Como forma de reduzir os abusos dos condutores, até 31 de março os 58 radares de velocidade, conversão e avanço de semáforo estarão instalados em Jundiaí. As notificações enviadas a quem for flagrado cometendo infrações até esta data deixam de ter caráter educacional e passam a gerar multa a partir de abril de 2020.

 


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