Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Nos semáforos, eles batem metas de vendas todos os dias

Guilherme Barros | 16/02/2020 | 05:17

Quem aguarda a abertura do semáforo entre a rua Eduardo Tomanik e a avenida Nove de Julho já pode esperar o oferecimento do tradicional biju. Dois vendedores trabalham com animação enquanto se esquivam de motocicletas que passam entre os carros parados nas duas faixas da via. De terça a sábado, entre 10h e 18h, eles chegam a vender até 150 pacotes cada.

Um dos vendedores, Rodrigo da Silva, o mais novo deles, com 32 anos, está neste mercado informal há pouco mais de quatro. Ele chegou a arrumar emprego formal, mas quando os contratos acabam ou é demitido, sabe que o semáforo é uma boa fonte de renda. “Até porque o biju é gostoso. Eu consigo, em um dia bom, faturar até R$ 100”, garante. Cada pacote custa R$ 4, ou três deles por R$ 10.

O mais velho deles, Acácio de Freitas, de 34, está neste mercado desde os 14. Ele também compra o biju de uma revendedora artesanal, que produz o material no Jardim São Camilo. “A grande maioria dos bijus de hoje é produzida no bairro. Esse pessoal que vende na rua compra tudo da mesma pessoa”, diz o rapaz.

Durante o período de trabalho, ambos recebem muito mais ‘não, obrigado’ do que realmente vender, de forma efetiva. Mesmo assim a palavra é não desistir. “A gente tem várias caixas para vender. É como se fosse bater uma meta, como qualquer vendedor normal. E é óbvio que a gente vai ouvir muito mais recusas do que aceites”, diz Acácio, em meio aos carros.

Já Rodrigo conta que em dias de calor é mais difícil vender. Mesmo assim, ele diz contar com a sorte. “Normalmente os motoristas andam mais com os vidros fechados no calor, o que dificulta nosso trabalho. Só abre quem vai realmente comprar. Tem vez, porém, que a gente ‘acerta na loteria’ e o cliente leva tudo o que tem na caixa. É realmente contar com a sorte. Em um episódio parecido uma só motorista levou 50 pacotes”, comenta.

A receita original eles não revelam. Têm receio de alguém copiar e lançar uma ‘concorrência’. “O que posso dizer é que com 1 quilo de trigo, açúcar, água e ovo dá para preencher 48 pacotes com quatro bijus”, diz Acácio. Cada caixa comporta até 50 pacotes.

 

PRECONCEITO
Diferente do que se imagina, a dupla diz não haver nenhum tipo de preconceito durante o trabalho. Pelo contrário. Por não terem registros de trabalho, ficam vulneráveis às fiscalizações, mas são defendidos, inclusive, pelos próprios motoristas e clientes. “Uma vez a fiscalização baixou para confiscar nossa mercadoria e os motoristas começaram a fazer um buzinaço no meio do trânsito para que não apreendessem nosso produto”, conta Rodrigo.

 

SÃO CAMILO
Moradores do Jardim São Camilo conheceram o biju justamente por morarem próximos à vizinha que há pelo menos duas décadas produz o material comestível. Acácio diz que, no bairro, quando menor de idade, chegou a ser aliciado para a prática de delitos, mas nunca cogitou a possibilidade, sempre ganhando dinheiro de maneira honesta, assim como Rodrigo. “Eu aprendi que a melhor coisa que existe é ganhar dinheiro de maneira digna. Uma vez fui levado preso como suspeito de um crime e quando fui apresentado ao delegado ele era meu cliente. O melhor ´é dormir com a consciência tranquila”, finaliza Acácio.

 


Link original: https://www.jj.com.br/jundiai/nos-semaforos-eles-batem-metas-de-vendas-todos-os-dias/
Desenvolvido por CIJUN