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O consumo de álcool começa dentro de casa

Fabio Estevam | 18/08/2019 | 07:00

Dados finais de estudo feito pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), revelados recentemente, mostram que no Brasil, o consumo de álcool por adolescentes tem começado aos 12 anos, ou seja, quando ainda criança.

Segundo o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), a adolescência vai de 13 a 18 anos. O estudo mostra ainda um avanço no abuso do álcool por adolescentes, problema notado também por órgãos de defesa da criança e adolescente de Jundiaí.

Aliás, comprar bebidas alcoólicas em Jundiaí é rotina diária, principalmente se as usuárias forem meninas. “Ninguém pede nosso RG no caixa”, afirma I.M, de 16 anos, flagrada em um grande mercado na rua do Retiro com latinhas de cerveja saborizada.

O panorama divulgado pelo Cisa é um estudo completo sobre o consumo de bebidas alcoólicas no Brasil entre 2010 e 2017. O documento reúne pesquisas feitas nesse período por entidades como Ministério da Saúde e Organização Mundial de Saúde (OMS) e mostra, no geral, uma redução na ingestão de cerveja e aumento de outros produtos com teor alcoólico maior.

A psicóloga Márcia Portes explica que na grande maioria dos casos a iniciação da criança e adolescente no consumo acontece dentro de casa.

“Eles são muito expostos ao álcool, começando por ter acesso inicialmente dentro de casa. Normalmente é assim.Pais que têm o hábito de beber, ir a festas, acabam oferecendo ou ao menos deixam experimentar. E geralmente começa com a cerveja”, disse ela.

“Depois, quando se reúnem em grupos, se torna normal tomar a cerveja. Só que, quando não tem dinheiro para isso, acaba comprando vinho, que acaba sendo mais barato para dividir com a turma toda. Ou compram vodca para misturar com suco. E atende o grupo todo”.

Quando não têm a iniciação dentro de casa, a exposição está nas amizades.

“Acontece quando eles são inseridos num grupo em que alguns já começaram a experimentar e lhes oferecem.”

Para Márcia Portes, os motivos que levam um adolescente a ingerir bebida alcoólica estão ligados às oscilações da idade. “A adolescência é a fase da vida onde o indivíduo mais sofre. É a fase onde tem oscilações de humor e conflitos. E a bebida ajuda a entorpecer, desviar do problema”, falou ela.

E completa, “Não ajuda em nada à saúde, ela piora, mas a sensação é de esquecer por um tempo. É uma fase de vida com muito problema vem para preencher essa questão dos adolescentes.”

Márcia faz um alerta. “As consequências são desastrosas”, disse ela. “No final da infância e início da adolescência o cérebro ainda está em formação. E a bebida vai interferir nessa formação. Primeiro porque vai mexer com a memória, a capacidade de atenção e a concentração. Mexe muito com todas as funções neuroquímicas do cérebro, levando ao desenvolvimento também de uma psicose.”

CONSELHOS

Para Ariane Goim Rios, a presidente do Conselho Municipal de Política Sobre Drogas (Comad), o problema está diretamente ligado a fácil aceitação da família e sociedade em geral, e à diversão dos jovens. “Quando o assunto é o consumo de drogas ilícitas, existe uma preocupação muito maior do que quando o problema é com o álcool. Sendo que ambos deveriam ser motivo de preocupação e atenção por parte de todos”, disse Ariane.

“E para os jovens o consumo de álcool está diretamente ligado ao lazer. A diversão está ligada ao álcool. Se ele está feliz, bebe para comemorar. Ou seja, o álcool não é levado tão a sério como deveria, porque não é ilícito”, comentou.

Em breve será divulgado pelo Comad um diagnóstico sobre o álcool e outras drogas em Jundiaí, que, segundo ela, “será uma etapa fundamental para a construção de uma política municipal sobre o assunto”.

Com base em atendimentos e dados que chegam através das OSCs (Organizações de Sociedade Civil) cadastradas no sistema público municipal de saúde, a presidente do Conselho Municipal de Defesa da Criança e Adolescente (CMDCA), Alda Maria Carrara, é enfática em dizer.

“O índice de jovens abusando de álcool em Jundiaí é alarmante”, disse.

“É por isso que recentemente trouxemos palestrantes renomados para tratar do tema aqui na cidade e que também trouxemos uma peça de teatro que também aborda o alcoolismo entre os jovens. Estamos sempre trabalhando ações como estas.”

EM OCORRÊNCIAS

O juiz da Infância e Juventude, Jefferson Barbin Torelli, afirmou que há anos a cidade não recebe denúncias de venda de bebidas alcoólicas a menores.


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