Jundiaí

O que o caso de abandono de uma bebê diz sobre a empatia

O caso do bebê abandonado no último sábado (8), na Igreja Nossa Senhora da Conceição, na Vila Arens, comoveu a sociedade, não só por se tratar de um recém-nascido, mas pela carta emocionada deixada pela mãe junto à criança. Levada para o Hospital Universitário (HU), a criança está bem e a partir de agora todo o trâmite legal está sendo avaliado pela da Vara da Infância e Juventude de Jundiaí. No tribunal das redes sociais, algo que geralmente gera revolta, desta vez causou empatia. E o ‘se fosse eu’ trouxe reflexão a muitas pessoas, principalmente mulheres, compadecidas com aquela mãe. A partir disto, a psicóloga Silmara Meireles explica que este compadecimento pode ter sido gerado na população por conta da carta. “O bilhete deixado pela mãe nos permite que preenchamos o vazio do não saber os motivos que a levaram a abandonar sua filha e nos dá a chance de percebermos minimamente as condições emocionais da mãe, assim podemos ser empáticos, reconhecer sem julgamentos a aflição descrita no bilhete da mãe que abandona a sua “princesa” por não se sentir, por motivos que desconhecemos, capaz de cuidar e garantir a vida que provavelmente ela imagina que sua filha mereça”, explica Silmara. A psicóloga diz ainda que é possível nos tornarmos empáticos quando dispomos de condições de perceber o estado emocional do outro. “Hoje em dia falamos mais abertamente sobre as implicações da maternidade na vida da mulher, ser mãe é lidar com dilemas, sofrimentos, frustrações e angústias a toda a prova, principalmente se não puder contar com o apoio do pai da criança, da família ou do estado. Reconhecemos as dificuldades da maternidade e podemos compreender melhor o que se passa com uma mulher que se sente incapaz de cuidar da sua princesa, certamente mãe e filha precisam ser cuidadas”, comenta Na ocasião, o vigia encontrou o bebê dentro de uma bolsa num canto do prédio. Junto dela, uma carta da mãe da criança. No papel, algumas palavras pareciam não expressar em completude a tristeza e o pesar de deixar a “princesa” dela naquele local. A mãe explicava o abandono por questões financeiras, pedia perdão à filha e, a quem a encontrasse, que não fizesse nenhum mal à bebê.

LEGALIDADE

O defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí, Fabio Jacyntho Sorge, diz que esta mãe provavelmente será encontrada, mas comenta o caso em tese, já que, enquanto defensor público, pode fazer a defesa da mãe. “O que será julgado é o abandono de incapaz, que tem pena de 6 meses a 3 anos, com aumento de um terço da pena se foi a mãe ou o pai que abandonou. A discussão é se ela, da fato, abandonou ou não, se ela não deixou para alguém pegar. Eu não acho que ela cometeu o crime de abandono”, fala Sorge. Ainda assim, Sorge diz que provavelmente a mãe não será presa. “Por ser ré primária e não ter flagrante, analisarão se ela será julgada. Possivelmente, ela será julgada e responderá em liberdade a uma condenação. Muito provavelmente ela perderá a guarda e a criança será encaminhada para a adoção. Ela pode ter interesse em permanecer com a criança, mas o juiz avaliará a condição dela em um estudo social e psicológico.” Segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo, a entrega de um bebê à adoção pode ser feita ainda durante a gestação. A grávida deve ir à Vara da Infância e Juventude e, após atendimento técnico, permanecendo o desejo de entregar o bebê, deve assim o declarar em juízo, para que após o parto haja a entrega voluntária. O desejo pode ser revogado após o parto, caso queira a mãe, contanto que a criança ainda não tenha sido adotada.

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