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O vírus que fez muitas pessoas optarem pelo tratamento em casa

Natalia Sousa | 05/07/2020 | 11:00

No Brasil, mais de 63 mil pessoas já morreram pelo coronavírus. Em Jundiaí, são 205 mortes confirmadas, com aproximadamente cinco com registros de falecimentos em casa. Há, ainda, pessoas de cuidados paliativos que têm escolhido não ir ao hospital, o que pode alavancar esta estatística de morte residencial, tão comum no século passado.

Desde o início da pandemia, todos os óbitos em residência sem causa definida em Jundiaí são suspeitos para covid-19, sendo atendido o protocolo específico, ou seja, coleta de material nasofaríngeo para análise, bem como sepultamento direto.

Houve alguns óbitos em residência ocasionados pela covid-19 em Jundiaí. O diagnóstico da doença, no entanto, foi coletado pelo Serviço de Verificação de Óbito (SVO),  ou seja, as pessoas morreram sem a certeza de que tinham covid-19.

A psicóloga Ivana Tolotti diz que uma possível causa para que estas pessoas venham a óbito em residência é que os hospitais sempre representaram para um lugar de segurança, um lugar para onde a gente vai ser cuidado, curado, algo nessa linha. “Hoje os hospitais estão sendo vistos como um lugar perigoso, um lugar onde você pode chegar, às vezes até com uma outra questão, e acabar se contaminando”, diz Ivana ao ressaltar que a evolução da doença é rápida e pode ser outro motivo.

Ivana reforça que é natural as pessoas com doenças crônicas, por exemplo, evitarem o ambiente hospitalar por medo neste momento. “Eu acho que entram muitas questões, muitas variáveis. Por exemplo, se a gente está falando de alguém que tem um médico de referência, o seu médico de confiança, eu acho que essa pessoa pode fazer contato com ele, fazer monitoramento da sua doença crônica à distância e esse médico vai dizer qual é o momento de ir para o hospital ou não.”

Já para quem depende de um serviço público de saúde, há diferenças. “Existe uma parcela imensa da população que não tem um médico de referência, que é atendida pelo SUS (Sistema único de Saúde) e cada vez é atendida por um médico diferente. Aí eu acho que vale pesar um pouquinho risco e benefício, colocar isso na balança para saber qual é o momento de procurar o atendimento”, fala a psicóloga.

A realidade é que, desde o início desta pandemia, as vítimas da covid-19 não são apenas as pessoas que contraíram a doença. Com uma grande parcela do sistema de saúde, público e privado, atendendo os infectados ou possíveis infectados pelo vírus da pandemia, praticamente não há espaço para que pessoas com outras necessidades de tratamento possam ser atendidas.

Segundo a Vigilância Epidemiológica (VE), há a investigação de todas as ocorrências de óbitos registradas na cidade com positividade para covid-19, com o objetivo de identificar as circunstâncias e condições do registro fatal. Em todos os casos, os familiares foram orientados ao isolamento preventivo.

SEM ATENDIMENTO

Enquanto os atendimentos da emergência aumentaram cerca de 32% em janeiro deste ano em relação ao ano passado, a partir de fevereiro os números começaram a cair. De fevereiro a maio deste ano, a procura de pessoas com problemas cardíacos pela emergência do HSV caiu cerca de 45% em relação ao mesmo período de 2019.

Pessoas com doenças crônicas, as chamadas comorbidades, estão no grupo de risco da covid-19, sendo mais suscetíveis a desenvolverem a forma grave da doença. Estes números apontam que a quantidade de pessoas com complicações relacionadas a estas doenças crônicas não diminuiu, mas a procura pelos hospitais neste período de pandemia foi menor.

É o que explica o cardiologista do HSV Wagner Ligabó. “O São Vicente atende quatro áreas complexas, oncologia, cardiologia, ortopedia de alta complexidade e neurologia. Mas agora também atende pacientes do coronavírus e temos dificuldade de atender outras áreas porque o coronavírus usa uma quantidade grande de leitos.”
“A maioria dos pacientes tem medo de ir ao hospital porque tem medo do coronavírus. Há aqueles que vão, mas não tem leito para internar e operar, mesmo com o exame pronto indicando a necessidade da cirurgia. Há um aumento preocupante de pacientes angustiados, que precisam de cirurgia”,  explica Ligabó ao justificar a ‘ausência’ das pessoas nos hospitais.

A fisioterapeuta intensivista Priscila Carvalho, que já atuou nove anos em Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e hoje atende casos graves em domicílio, conta que a preocupação é constante devido à fragilidade de seus pacientes. “Por enquanto não há ninguém infectado e estão todos em tratamento. As famílias estão cientes e tomam os devidos cuidados para evitar a contaminação. Eles me ajudam também com o apoio.”

PELO PAÍS
O Brasil tem 63.409 mortes por coronavírus confirmadas até as 13h deste sábado (4), aponta um levantamento feito pelo consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde.

Antes da atualização das 13h, o consórcio divulgou um primeiro boletim, às 8h. Segundo os dados disponibilizados naquele horário, pela manhã, o Brasil contava 63.295 mortos e 1.545.458 casos confirmados.


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