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Pacientes psiquiátricos passam primeiro natal em residências

COLABORAÇÃO DE LÍGIA ANDRADE | 13/12/2018 | 05:04

Aos 12 anos de idade, Cecília Simões, jundiaiense de nascença, foi internada em um hospital psiquiátrico. Transferida entre inúmeros hospitais durante toda a sua vida e sofrendo os mais diferentes tipos de trauma, Cecília, hoje aos 57 anos, comemora seu primeiro natal na Residência Terapêutica de Jundiaí – ou como ela mesma prefere chamar, “sua casa”.

Desde o fechamento de hospitais psiquiátricos e a implementação de uma nova política de saúde mental, as Residências Terapêuticas recebem ex-pacientes com transtornos mentais e tentam dar a eles uma nova chance de viver. Em Jundiaí, duas unidades foram abertas neste ano e acolhem 19 pessoas, com a capacidade de abrigar até 10 cada.

“Nosso objetivo é que a Residência seja o ambiente mais familiar possível para eles”, afirmam Camila de Assis e Renata Jorge do Lago, terapeutas ocupacionais. Para isso, buscam a autonomia dos residentes, deixando para eles a decisão do que querem comer no café da manhã, receberem visitantes, dentre outras diversas atividades cotidianas. Neste dezembro, os residentes montaram juntos a árvore de natal, e ensaiam enfeitar toda a casa com decoração natalina. Já escolheram até mesmo seus presentes, que foram entregues por profissionais da Rede de Saúde Municipal. Segundo Camila, foi a forma que encontraram, por iniciativa própria, de felicitar seus pacientes.

Equipes de cuidadores e técnicos de enfermagem acompanham de perto os ex-pacientes de hospitais psiquiátricos, com duas equipes dispostas a ajudá-los 24 horas por dia. Cenário bem diferente do que os residentes estavam acostumados. Maus-tratos, negligência e até mesmo choques contra os pacientes eram práticas recorrentes.

Cesar Monteiro, de 54 anos, diz que os hospitais injetavam nele um número excessivo de medicamentos. “Iam me matar”, relata, descrevendo os locais como manicômios. Sentado em uma cadeira confortável na sacada da Residência Terapêutica, Cesar diz estar em um ambiente muito mais tranquilo, e espera comer panetone e bolachas recheadas no Natal. Os 7 meses passados até agora na Residência parecem, aos poucos, superar os 30 vividos nos tais “manicômios”.

A idade dos residentes varia dos mais novos, de 50 anos, aos mais velhos, de 90. Todos compartilham experiências marcantes em Jundiaí: alguns aqui nasceram, outros possuíam parentes na cidade. Com a ajuda de mapeamento a partir da construção das Residências Terapêuticas, aqueles que haviam sido internados em locais distantes voltaram a Jundiaí. Cecília Simões se emociona ao relembrar sua chegada.

Em meio a trajetórias marcadas pela brutalidade, os moradores da Residência Terapêutica parecem finalmente encontrar tranquilidade e, além disso, companheirismo de seus colegas. Juvelina Proença, de 57 anos, comemora a mudança com um poema, intitulado “Poema do Amigo”. Entre as estrofes, Juvelina expressa seu carinho por seus amigos: “Amigo, saiba que você está perto de mim nas horas difíceis, e ah!Se ele pecar corro, corro outra vez para falar para ele: olhe o teu santo preocupado com tua salvação. Amigo! Irmão!”.

RESIDENCIA TERAPEUTICA DE JUNDIAI CECILIA GOMES SIMOES

RESIDENCIA TERAPEUTICA DE JUNDIAI
CECILIA GOMES SIMOES


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