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Para moradores do Centro histórico, praticidade e memória superam decadência

BÁRBARA NÓBREGA MANGIERI | 03/02/2019 | 09:00

O número 533 da rua do Rosário abriga hoje a Galeria do Rosário, com várias lojas e restaurantes. Em 1932, porém, era a residência do ex-prefeito Alceu de Toledo Pontes, onde nasceu sua filha Maria da Glória Pontes de Toledo.
Em seus 87 anos, ela passou apenas três anos longe do Centro, entre 1955 e 1958, quando foi para o Guarujá acompanhar o marido militar.
Depois de enviuvar cedo demais, Maria da Glória voltou para a casa dos pais e vive na mesma rua até hoje, sem arrependimentos. “Sempre amei morar aqui”, declara.
Com os olhos distantes, ela lembra com ternura de uma época em que o bairro era mais ‘vivo’: o Polytheama e os cinemas Marabá, República e Ipiranga mantinham a população circulando à noite; os clubes Jundiaiense, Acre, Tênis Clube, Grêmio e Casino eram frequentados pelas figuras mais influentes da cidade.
“As procissões religiosas passavam todas por esta rua, assim como o desfile da Festa da Uva e o Carnaval”, recorda. “Todos os acontecimentos e pessoas relevantes estavam aqui na rua do Rosário ou na Barão de Jundiaí”.
De cor e salteado, ela cita cada uma das famílias e ex-moradores que marcaram a história do bairro e hoje dão nome a ruas, escolas e equipamentos importantes da cidade: José Romero Pereira, Capitão Curado, Rubens Noronha de Mello, Dr. Bento Gurgel, as famílias Pupo, Gelli, Moraes…
Maria da Glória lembra dos esforços de gestões anteriores para restaurar as fachadas das casas que hoje abrigam comércios dos mais diversos tipos. “A Galeria Rosário graças a Deus manteve a carinha da casa do meu pai, mas outras famílias não tiveram essa sorte”, lamenta.
A decadência do Centro, em especial na segurança, não balança o amor dela pelo bairro. “É uma judiação não ter mais aquela vida, mas tudo que eu preciso eu tenho perto: mercadinho, farmácia, a Igreja, que eu frequento muito”, enumera. “O que eu sinto mais falta é de um cinema e mais estacionamento”.
A proximidade de lojas e serviços também é o que mais atrai o advogado Tales Alcântara de Melo, de 31 anos, que veio de Minas Gerais para um apartamento no Centro, há dois anos. “Tenho tudo à mão por aqui, vou à missa, caminho no fim da tarde, faço compras”, elenca.
Ele elogia os prédios mais antigos do bairro, que são mais espaçosos que as construções atuais. “Por ser um andar mais alto, o barulho do trânsito não atrapalha meus momentos de escrita e leitura, e o pôr-do-sol é incrível todos os dias”, elogia.
Por outro lado, Tales gostaria que o Centro tivesse mais espaços de convivência para sair com sua esposa e filha, de um ano. “Não tem um barzinho ou praça habitada por aqui”, opina.
Por isso, ele pretende procurar uma casa em um bairro mais distante e tranquilo, apesar de adorar o Centro. “Cresci em sítio e quero que minha filha tenha esse tipo de liberdade, que não se pode ter aqui”, justifica.
O advogado lamenta, também, que a história do Centro não seja tão bem preservada. “É inadmissível aquela praça da Catedral abandonada daquele jeito, os monumentos pichados e mal cuidados”, avalia.
Para ele, o fenômeno pode ser visto em várias cidades do país. “Na Europa você vê tudo sendo revitalizado. Eles entendem a importância de valorizar a história” compara.
“Deixar o Centro bonito de novo é essencial. Quanto mais contato com o belo, melhor se vive”, garante Tales.

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