Jundiaí

Para os casais, este é um período da aprendizagem


NAMORO A DISTANCIA MATHEUS FRARE
Crédito: Reprodução/Internet
Para a maioria das pessoas, a parte mais difícil desse período de distanciamento social é ficar longe das pessoas que ama. Amigos e familiares que não moram na mesma casa estão abrindo mão do convívio e das visitas por um bem maior. Nesse grupo entram os casais que namoram ou são noivos, mas não moram juntos. Muitos continuam se vendo, porém alguns decidiram aderir às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e estão há semanas sem se encontrarem. A atendente de escritório Beatriz Ramalho, de 29 anos, e o mecânico de serigrafia Evandro Esperandio, de 30 anos, são exemplo disso. Prestes a completar um ano de namoro, o casal está há pelo menos três semanas sem se ver. Como ela mora com os avós, grupos de risco, e ele não parou de trabalhar, resolveram ficar distantes fisicamente. “Esse período está sendo muito difícil. Tínhamos o costume de nos encontrarmos no mínimo três vezes na semana. Atualmente, o único jeito de matar um pouco a saudade é fazer chamadas de vídeo”, conta Beatriz. O casal considera o período como um aprendizado. “Temos que aproveitar a vida como se não houvesse amanhã porque muitas vezes realmente não há. Talvez, se soubéssemos que não nos veríamos tão cedo, teríamos aproveitado mais o nosso último encontro. Um abraço mais apertado, um beijo mais demorado, talvez. Só o verdadeiro amor para aguentar a distância”, brinca Beatriz.  Evandro completa. “Dá vida não se leva nada, mas a saudade é uma dor que não passa. Só aumenta a cada dia, mas se o amor é verdadeiro, ele nunca vai acabar”. A estudante Giovanna Maria Santos, de 18 anos, e o tatuador Matheus Frare, de 20 anos, também decidiram ficar afastados nesse período. Juntos há um 1,8 ano, eles estão há mais de um mês sem se ver pessoalmente. “Para nós está sendo muito difícil, ficamos mais irritados e sensíveis. Conversamos por mensagem praticamente o dia inteiro e tentamos fazer ligação de vídeo pelo menos uma vez no dia. O distanciamento vem nos ensinar todos os dias que somos muito pequenos diante desta pandemia toda, porém fazemos a diferença com pequenos atos. Temos que deixar o egoísmo de lado e pensar em todos que estão ao nosso redor.” Para o casal, o momento é de aprendizado e maturidade. “Tudo isso é muito mais do que uma “prova de amor”. Mostra o nível de maturidade e de responsabilidade que um casal está disposto a assumir juntos. Se o sentimento for mesmo real acredito que após tudo isso estará muito mais forte”, completa a jovem. Além dos jovens casais, àqueles que estão juntos há bastante tempo também dão exemplo e mantêm o distanciamento. A psicóloga Midiam Talita Laureano, de 30 anos, e o diretor de arte Marcos Fernandes, de 28 anos, estão juntos há oito anos e meio. Noivos desde dezembro de 2019 estão longe há pelo menos um mês. Midiam conta que o momento mais difícil são os fins de semana, pois passavam todo o tempo juntos. “Para amenizar a saudade temos conversado diariamente por mensagens, além de fazermos vídeochamadas e usarmos a extensão Netflix Party que nos permite ver filmes e séries ao mesmo tempo e ainda conversar através de um chat que fica ao lado da tela de exibição. Ele também comprou um ovo de chocolate presente e pediu para entregar em casa. São pequenas coisas que confortam mesmo longe”, relata. A psicóloga afirma que em momentos como esse muitos aprendizados podem ficar para as pessoas. “Acho que os ensinamentos que podemos tirar da situação é o de sermos mais empáticos e menos egoístas. Poderíamos estar nos vendo, mas optamos por não devido a eu morar com meus pais que estão no grupo de risco. Acho que essa situação pode ser considerada uma "prova de amor" aos casais, porque para mim, além do amor, é preciso respeito, companheirismo e uma boa dose de paciência, tanto em relação ao tempo que tudo vai durar, quanto em relação às nossas diferenças e discordâncias que acabam surgindo, mas que procuramos resolver através do diálogo”, explica. ALÉM DAS FRONTEIRAS A pandemia do novo coronavírus não afeta só o Brasil. Isso é fato. O distanciamento se torna ainda mais difícil quando ele cruza as fronteiras dos países. A jundiaiense Júlia Grioles, de 26 anos, é técnica de futebol na cidade de Baraboo, Wisconsin, nos EUA e há um ano conheceu o namorado, Tristan Sticha. Como trabalha na cidade em alguns períodos do ano ela se acostumou a ficar sem vê-lo. A jovem voltaria em março para o início da temporada, quando tudo estourou. “Em novembro eu voltei para o Brasil e pretendia retornar para lá em março, no fim do inverno. Em fevereiro viajei para visitá-lo e foi a última vez que nos vimos”, conta. Júlia relata que as passagens já estavam compradas. “Eu até ia fazer uma surpresa para ele quando o coronavírus veio à tona e tiveram que cancelar e adiar as viagens. Hoje estou sem previsão de volta”, afirma.  E completa. “Esse período longe é muito difícil, muito mesmo. Sabíamos das dificuldades e do que poderia vir pela frente, mas a comunicação é essencial. É difícil demais não ter o contato físico, não ter vivências com seu namorado e não precisar só conversar nas telinhas, mas foi uma condição que aceitamos e decidimos lidar. É muito fácil amar quando está tudo bem, quando está perto, pode se ver todos os dias, mas quando você ou seu parceiro estão vulneráveis e você precisa passar por uma dificuldade tem que ter muita comunicação e paciência”, diz. Ela está resiliente. “Eu me descobri muito paciente. Eu tenho ensinado ele a como se comunicar melhor e tem dado muito certo. Conversamos todos os dias por vídeo. É nosso refúgio. É frustrante ficar longe, mas eu reconheço meu privilégio de ter alguém que caminha ao meu lado, facilita as coisas e que respeita minha forma de lidar com os dias difíceis da quarentena. Isso é o que importa. Também reconheço que é um privilégio ter uma casa para ficar, com minha família e sem sair. Espero que todos que tenham essa mesma condição possam respeitar a quarentena para que a gente tenha condição de superar tudo isso”, afirma esperançosa.

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