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Para sair de uma relação abusiva, autoestima e coragem são fundamentais

COLABORAÇÃO DE MARIANA CHECONI | 23/06/2019 | 05:01

“No começo tudo eram flores. Nos conhecemos na casa de um sobrinho dele. Sempre me pedia conselhos sobre como agir com a ex-mulher e a filha, pois eu tinha pais separados e entendia a situação. Começamos a namorar. Cerca de um ano depois ele pediu para que fôssemos morar juntos. Na época, ele tinha 35 anos, eu 40, isso me fez aceitar, pois meu sonho era formar uma família. Quando estávamos juntos em eventos com minha família e amigos, ele era carinhoso e solícito, um verdadeiro cavalheiro. Quando estávamos sozinhos, o cenário era completamente diferente.” A.M.O., hoje aos 53 anos, aceitou compartilhar um dos momentos mais difíceis que passou na vida, durante os quatro meses em que moraram juntos.

Situação que afeta milhares de mulheres em todo o Brasil, o relacionamento abusivo. Somente neste primeiro trimestre, houve 696 registros de violência doméstica em Jundiaí. Em 2018, foram 2,1 mil casos.

“Quando estávamos sozinhos, ele me humilhava verbalmente, fazia brincadeiras de mau gosto. Um dia, estava na cozinha fazendo comida e ele abriu um armário, pegou uma lata preta e espirrou em mim seu conteúdo. Era spray de pimenta. Eu sufoquei na hora, comecei a lacrimejar muito e tudo que eu conseguia era ouvir a risada dele. Ele afirmou ser apenas uma brincadeira. Outra vez, estávamos em um jantar e ele me tirou pra dançar. No meio da música, sussurrou no meu ouvido que eu era um “trambolho”. Na hora paralisei, mas consegui ir embora. Deixei-o sozinho no meio da pista de dança. Em outra “brincadeira”, ele me deu uma rasteira e me derrubou no chão da sala. Se jogou em cima de mim, me sufocando. Achei que ia perder os sentidos antes de conseguir levantar. Esses foram episódios pontuais, fora as diversas vezes que ele me menosprezou e me constrangeu, dizendo que eu era lenta, gorda e não fazia nada direito. Tudo isso na frente dos amigos e família dele. Um dia, me pegou à força para fazer sexo. Ele era bem maior e mais forte que eu. Deixei porque ele estava bêbado. Temi que me machucasse se tentasse me soltar. Esse dia foi a gota d’água pra mim”.

“Depois daquela noite comecei a procurar uma casa para alugar sem que ele soubesse. Fui à Delegacia da Mulher e fiz um boletim, pedindo uma medida protetiva, pois tinha medo que ele viesse atrás de mim e fizesse o pior. No dia da mudança, ele descobriu, veio chorando e se ajoelhou aos meus pés, disse que mudaria e nunca mais me faria mal. Por sorte percebi como ele era de verdade e consegui sair desse relacionamento antes que o pior acontecesse. Mesmo separados, passei dois anos e meio mudando de casa, pois ele sempre me encontrava, me ligava pedindo para voltar, dizendo que me perdoava por eu ter abandonado nosso relacionamento. Eu consegui me colocar em primeiro lugar e sair dessa relação abusiva, mas sei que isso é bem difícil e não acontece com todas as mulheres”, conclui A.M.O

A psicóloga Silmara Pincinato Silva afirma que para identificar um relacionamento abusivo é necessário perceber se há uma diferença de poder de uma das partes, os abusos podem ocorrer física ou psicologicamente. “Eu percebo que essa situação vai surgindo de uma maneira lenta. A vítima demora a perceber que está se envolvendo com alguém abusivo. Ela vai tolerando as ações do outro sem perceber no momento que aquilo está machucando”, afirma. Silmara acredita que mulheres que possuem autoestima baixa são mais propensas a viverem esses relacionamentos. “Em geral, essas situações ocorrem com mulheres que possuem uma autoestima muito rebaixada e um autoconhecimento insuficiente. Ela não conhece as próprias capacidades e qualidades, atribui ao outro um poder e um conhecimento maior. Isso valida a autoridade do outro. A vítima acredita que é somente aquilo que o companheiro diz. Percebo que é mais difícil uma pessoa que gosta de si mesma, se ama, se aceita como é, se envolver numa relação abusiva”, explica.

Psicológica

Além da violência física, algo que deixa marcas tão ou mais profundas é a violência psicológica. De acordo com pesquisa realizada pelo Datafolha, e<CW-1>m 2018, 12,5 milhões de mulheres foram vítimas de ofensas verbais como insultos, humilhações e xingamentos no Brasil. A história de E.N. é exemplo disso. Após sair de um casamento frustrado, onde foi traída diversas vezes, entrou em um relacionamento que a princípio parecia ser diferente, mas no fundo, foi pior. “O mais difícil num relacionamento abusivo é identificá-lo. Estamos sempre tão envolvidas e apaixonadas, que isso faz com que nossa mente altere os fatos. Tudo que a pessoa faz, projetamos como carinho, afeto e cuidado. Mas não é. Sempre é posse, manipulação e prisão. Como não queremos perder quem amamos, vamos vivendo cada vez mais uma tortura pungente na alma”.

“Assim como todos os casos, no início parecia um sonho, de repente tudo começou a ficar sufocante. ‘Era cuidado’, ele dizia. Vistoriava minha bolsa e celular todos os dias quando eu chegava do trabalho, entrava na empresa onde eu trabalhava de surpresa no meio do meu expediente para ver o que eu estava fazendo, se eu estava mesmo trabalhando. Uma vez, se fantasiou de motoboy para que o porteiro não me avisasse. Quando iniciei uma faculdade, só podia ir às aulas se nossos filhos, gêmeos, estivessem dormindo. Muitas vezes ele batia porta para acordá-los para que eu não pudesse ir estudar”

“Demorei muito para ver o quanto ele me maltratava. Tudo o que eu dizia estava errado, sempre era do contra, mas fui forte e, mesmo com muita resistência, me separei dele. Confesso que só consegui porque a mãe dele nunca gostou de mim e me ajudou na separação. Mesmo depois da separação ele continuou me maltratando. Dessa vez, usando de poder financeiro e militar para com meus filhos. Conseguiu armar uma história, manipular a justiça e me afastou dos meus filhos por três anos e meio”
“Eu consegui sair dessa situação, pois percebi que quem abusa se sente dono do outro, capaz de maldades sem fim para atingir seus objetivos, que é tê-la como propriedade. E, quando não conseguem, ficam ainda mais maquiavélicos, a ponto de usar toda e qualquer ferramenta para conseguir o que quer”, relata a moça.

Para a psicóloga, as mulheres têm dificuldade de sair de relações abusivas por diversos motivos. Desde medo à consideração aos bons momentos. “O abusador se coloca de tal forma que a vítima fica aprisionada na relação, que oscila o tempo todo. Não é só o medo. O abusador pode oferecer momentos de agrado, sensação de segurança, comodidade. Ninguém vive num local onde só perde. De alguma forma, a vítima enxerga algo bom na relação. Sempre tem algo além do abuso que mantêm a vítima na relação. Por isso, é tão difícil, sair significa se responsabilizar pela própria escolha, nem sempre isso é fácil”, afirma.

Apoio

A psicóloga afirma que, em casos como esses, o apoio da família, amigos e profissionais da área é fundamental para que as mulheres consigam se reerguer. “Do meu ponto de vista, quem tem uma rede de apoio tem mais facilidade em sair dessa relação. Dessa forma ela consegue se ver de outras formas além da maneira como o abusador a coloca”, diz. Em relação ao trabalho terapêutico, o principal é ajudar a vítima a se enxergar como realmente é “Nossa principal questão é ajudar a pessoa a se reconhecer e perceber o porquê se colocou naquela situação. Além disso, fortalecer a autoestima, potencializar as qualidades e capacidades. É um trabalho um pouco demorado, mas necessário. A pessoa tem que sair por conta própria. Se não for dessa forma, a pessoa pode sair de um relacionamento abusivo e ingressar em outro com as mesmas características”, explica a psicóloga.

“Minha história, perto de tantos outros casos que escutamos todos os dias, parece mais simples, mas foi porque não deixei ficar pior. Coloquei em minha cabeça, depois daquela noite horrível, que eu não era lixo. Não merecia ser tratada daquele jeito. Tinha que me amar em primeiro lugar e não implorar pelo amor de ninguém. Quando uma mulher perceber a transformação do parceiro quando estão sozinhos e junto aos outros, sai dessa relação, antes que comecem outras formas de violência. Se ame em primeiro lugar. Nunca coloque sua felicidade nas mãos de ninguém. O que segura uma relação é o respeito e o companheirismo entre o casal. É o amor, não a imposição”, afirma A.M.O.

Vítimas relatam como conseguiram escapar de seus parceiros abusivos, com apoio da Justiça, e reconstruíram suas vidas


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