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Por trás das cortinas, os bastidores do maior circo da América Latina

COLABORAÇÃO DE MARIANA CHECONI | 16/05/2019 | 05:05

Abrem-se as cortinas e a exibição começa. Acrobatas, bailarinas, contorcionistas, equilibristas, mágicos e palhaços fazem o show acontecer. Mas, você sabe o que acontece nos bastidores de um circo? O JJ embarcou na magia por trás do espetáculo do Circo Tihany e descobriu que dentro da lona, os sonhos podem se tornar realidade.

Armado em um espaço de 22 mil metros quadrados com uma lona de 12 metros de altura e um palco com 700 metros, o circo conta com uma estrutura muito bem organizada. Tudo é transportado, nada fica para trás e dificilmente algo é acrescentado. Quarenta carretas acompanham todo o show para as cidades definidas pela equipe. Uma das dificuldades da escolha de local é justamente um terreno que comporte toda a estrutura. Engatadas na lona, oito carretas servem de camarins e apoio técnico para que o show aconteça como planejado. Nos bastidores, todos os itens usados tem seu devido lugar. Os artistas sabem onde está cada objeto. Mesmo com a prática, um painel com a ordem das apresentações fica pendurado para que bailarinas, acrobatas, equilibristas e todos que fazem o show acontecer consigam conferir. Além de toda essa estrutura, 30 trailers transportam os artistas que escolheram morar no circo.

Enrique Alavarado, relações públicas do Tihany, conta que nem todos os artistas escolhem morar no circo. Alguns deles, principalmente os solteiros, ficam em hotéis. “Eles sabem as responsabilidades que têm. Precisam chegar com uma hora de antecedência para a preparação que envolve desde roupa, cabelo e maquiagem até aquecimento para as apresentações. São eles que decidem se preferem ter um trailer e ficar no circo ou se hospedarem em algum hotel da cidade”, explica.

Muitas histórias fazem parte dos bastidores do espetáculo. O Circo Tihany atualmente conta com um elenco de 50 artistas de 22 nacionalidades. Americanos, britânicos, húngaros, mongóis, argentinos, mexicanos, russos e brasileiros são algumas das nacionalidades que formam a grande família circense. A bailarina brasileira, Bianca Palheta, 22 anos, em meio a preparação de sua maquiagem, fala sobre a rapidez nos bastidores. “Ao todo somos em 12 bailarinas. Aparecemos todas juntas em 10 atos. Cada um deles é uma roupa, um sapato e um cabelo diferentes. Por isso, temos que ser muito rápidas”, afirma. Bianca lembra que sempre sonhou em trabalhar com dança e viajar. Viu no circo a oportunidade de realizar o sonho. “Minha família sempre dizia que dança não dava dinheiro. Apesar disso, eu estudei muito e consegui me formar. Sempre acreditei. Trabalhava no Beto Carreiro quando o Tihany chegou a Penha (SC). Fiz o teste e passei. Há três anos integro a equipe de artistas deste espetáculo”, diz. Ela é nascida em Belém, no Pará.

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O acrobata brasileiro Alex Santiago, 29 anos, nascido em Santa Catarina, se apresenta no circo há três anos. Participa de um dos primeiros atos. Acrobacias aéreas impressionantes que realiza sem cabos de proteção. Ele conta que a prática faz com que o show aconteça. “Nós ensaiamos muito e isso acaba sendo nossa segurança nessa apresentação. Com a rotina de ensaios, que é intensa, o corpo acostuma. Tem que ter muita concentração a atenção. A adrenalina quando o público começa a vibrar com a surpresa também é muito importante para que saia sem nenhum erro”, conta.

Uma das maiores curiosidades referentes ao mundo do circo é o sentimento dos artistas em relação a estar em uma cidade diferente todos os meses. Criados no meio circense, muitos não conhecem outra vida. Rodrigo Garcia, 38 anos, o palhaço do Tihany, ao ser questionado sobre como é viver viajando, rebate com uma pergunta “Como é viver sempre no mesmo lugar?”. Para ele, a rotina de viagens é normal. “Eu gosto muito. Nasci no circo, desde pequeno convivo com esse mundo. Já sou a quinta geração de uma família circense. Ser palhaço foi o que escolhi fazer. Cada apresentação é diferente. A reação das pessoas muda a cada dia. Mesmo fazendo todos os dias, dá um frio na barriga por conta da expectativa”, explica. Rodrigo conta que a realização de um palhaço é arrancar risadas do público. “Tudo que a gente quer é que as pessoas achem que valeu a pena assistir o espetáculo e que elas tenham bons momentos com a família para que isso vire uma boa lembrança”, relata.

Para quem não tem a família no circo, como Rodrigo, a distância é uma das partes mais difíceis. A tecnologia ajuda a matar a saudade e além disso, uma vez por ano os artistas tem férias e podem passar um período na cidade natal.

A vida de quem escolhe viver junto ao circo

Um dos mágicos do Tihany, Romano Garcia abriu sua casa para a equipe do JJ. Nascido em uma família circense, parou por um período para estudar. Mas sentiu falta da emoção de viajar e estar sempre em lugares diferentes e há 16 anos está no Tihany. “Costumo dizer que o circo é um turismo remunerado. O turismo feito com o circo é mais a fundo. Você vive os problemas da cidade. Se você tem filhos, eles precisam estudar. De repente tem que passar por um médico em um país de fora. Tudo que vivemos em nosso país, vivemos em muitos diferentes. Nada é mais gratificante que esse tipo de vida”, conta.

Romano mora num trailer, junto com a mulher, Sandra Garcia, costureira e responsável por todos os figurinos do espetáculo. O casal conta que optou pelo trailer ao invés dos hotéis por conta da facilidade e praticidade de morar no mesmo local que trabalham. “Não precisamos pegar nenhum transporte de casa para o trabalho e vice-versa. Além disso, entre uma apresentação e outra posso vir até minha casa tomar um café, tirar o sapato, descansar um pouco”, diz Romano. “Aqui tem tudo. Uma cozinha normal, ar condicionado, televisão, internet, água quente. A única diferença é que é compacto. Nós nos adaptamos ao ambiente e vivemos bem”, conta.

Romano afirma que o circo é uma grande família. “Aqui há uma coisa muito bonita que eu sempre gostei que é a comunidade. Todo mundo se respeita. Um exemplo são as religiões. Sempre tem de três a cinco diferentes, no mínimo. Todas se respeitam. Nós até comemoramos as festividades e costumes de cada uma delas, como uma família”, relata.

Em suas andanças, Sandra e Romano demoraram 12 anos para voltar ao Brasil com o circo. Contam que sentiram muita diferença. “O Brasil está um retrocesso. A educação é a pior parte. Outros países da américa latina são muito mais desenvolvidos nesse sentido. Outra diferença é a cultural. Outros países não cobram “meia entrada”. As pessoas fazem questão de pagar o valor inteiro para assistir espetáculos. A cultura é muito valorizada lá fora, infelizmente no Brasil não é assim”, destaca Romano.
Apesar da vida de viajantes, o casal afirma que consegue criar vínculos com as pessoas nas cidades. “Muitas amizades se mantêm. A tecnologia possibilitou isso. Mesmo com essa vida agitada e estando cada mês em um lugar, conseguimos manter laços com as pessoas”, conta Sandra.

Ao fim da temporada, eles engatam o trailer no carro e partem para a próxima cidade.

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HISTÓRIA
O circo foi fundado em 1954 pelo mágico Tihany, cujo nome era Franz Czeisler (1916-2016), em Jacareí (SP). Franz nasceu na Hungria, país de onde pegou emprestado o nome da cidade de Tihany, veio para o Brasil fugindo dos nazistas que perseguiam sua família de origem judia. Considerado um dos mais famosos ilusionistas de todos os tempos, Tihany foi consagrado como Mago dos Magos. Se tornou também um dos maiores e mais bem-sucedidos empresários do mundo circense, sendo o pioneiro ao colocar um palco e não um picadeiro como parte da estrutura dos espetáculos. Em março de 2016 faleceu, aos 99 anos, na cidade de Las Vegas, nos Estados Unidos deixando como legado o circo, considerado o maior da América Latina e o terceiro maior do mundo.

ABRAKDABRA
O show ‘AbraKdabra’ é a última criação de Franz. Em cartaz há 15 anos, o espetáculo foi desenhado pelo húngaro para comemorar os 50 anos do circo.
No Brasil desde 2018, está visitando diversas cidades em 12 Estados Brasileiros e Distrito Federal.


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