Jundiaí

Profissionais de saúde se emocionam ao falar da família


T_Dr. Eduardo Rennó Carvalho
Crédito: Reprodução/Internet
Lidar com o inesperado faz parte do cotidiano de médicos e enfermeiros que atuam em pronto-socorros e UTIs (Unidades de Terapia Intensiva). São equipes que encaram de frente momentos complexos da saúde dos pacientes. Com a progressão da pandemia de coronavírus (covid-19), os cuidados na abordagem foram ampliados, mas o acolhimento não diminuiu. Por segurança, o contato físico ganhou um pouco mais de distância com o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) extras entre equipe médica e pacientes. E o reflexo atingiu além das paredes das unidades hospitalares. Os próprios médicos e enfermeiros também estão em isolamento das pessoas da sua convivência. O médico intensivista e coordenador da UTI do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), Eduardo Rennó Carvalho, vive uma rotina cansativa com a alta demanda causada pela pandemia. O tempo é curto para tomar decisões para ajudar os pacientes e ainda lidar com a questão do distanciamento familiar. Divorciado, pai de dois filhos, Carvalho há um mês não tem contato físico com eles. “Tenho colegas, com filhos pequenos, parentes idosos que também tiveram de se isolar, assim como eu”, analisa o médico que, apesar da exaustão, agradece a união da equipe que enfrenta a doença ao seu lado. Deste período, a lição que fica para o médico é com quem realmente pode contar. “No início do surgimento dos casos, muitas pessoas se afastaram e outras, que eu nunca poderia supor, apareceram para auxiliar. Algo que merece ser citado é o apoio do HSVP, que disponibilizou suporte e equipamentos para oferecermos o melhor para os pacientes, além de motivação em confraternizações de bom dia e o carinho dos voluntários. Eles aparecem com bombons, palavras de incentivo e isso torna tudo muito especial. Alegra o coração”, comenta o médico. A enfermeira Susana Santana Moraes, 35 anos, que trabalha no pronto socorro-do HSVP, conforta com toda assistência os pacientes, porém precisa lidar com a ‘distância’ da filha. Há duas semanas precisou deixar a filha de dois anos com os pais, que também fazem parte do grupo de risco, e só a vê de longe. “É difícil! O emocional balança. Não poder abraçar, beijar, dar carinho... Mas é para a segurança de quem a gente ama. Eu tomo todos os cuidado para não expô-los à contaminação. Meu marido trabalha em supermercado e também usa os mesmos cuidados. Um apoia o outro e de longe mando beijo para a nossa filha. Quando me formei sabia de como seria a rotina e amo o que eu faço", disse Susana. A cardiologista Célia Regina Pelliciari Galeotti, 57 anos, coordenadora médica do Pronto Atendimento Adulto da Unimed Jundiaí lida de frente com este acolhimento aos pacientes supostamente diagnosticados com covid-19. Devido ao trabalho intenso se viu obrigada a se isolar de sua família. “Faço isolamento em meu apartamento mantendo distância das pessoas que estão comigo. Minha rotina é de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Estou isolada dos meus familiares. Falo com eles por telefone apenas. Tenho uma jornada de trabalho que vai de 10h a 14h por dia nesta fase, conforme a necessidade. Eu e o infectologista, Regis Nadin Barbosa, estamos sempre presentes no serviço e discutimos os casos com os plantonistas. Isto tem sido de grande valia e os plantonistas se sentem acolhidos com a coordenação presente”, diz a cardiologista. O coordenador de enfermagem recursos próprios da Unimed, Fabiano José de Souza, de 37 anos, também teve a vida alterada pela covid-19. Após um longo dia de trabalho no pronto-socorro, sua rotina familiar mudou completamente. “Esta é parte mais difícil, sou casado e tenho uma filha de 16 anos. Procuramos ao máximo tomar todos os cuidados, sabendo que o risco é alto. Ao chegar em casa, procuro deixar as roupas e sapatos para fora já pra lavar, me direciono imediatamente para o banho e só depois temos algum contato. O pior é a distância das pessoas que amamos. Por isso tomo os cuidados necessários para permanecer o mais perto possível e recarregar as energias. E voltar no outro dia, em mais um dia de batalha”, comenta. UNIÃO Mesmo com o isolamento social, a gerente assistencial do Hospital Universitário de Jundiaí, Larissa Castro, 39 anos, destaca o apoio como ferramenta motivadora para lidar com as situações do pronto-socorro neste período. “Como responsável pela equipe de enfermagem, sou grata pela união e responsabilidade, com que as pessoas têm exercido suas funções no HU. São profissionais, que muitas vezes estão abdicando do convívio familiar e estão no hospital diariamente, para cuidar de pessoas que não conhecem e fazem isso de uma forma excepcional. Tenho a certeza de que quando tudo isso terminar, olharemos para estes dias e ficaremos orgulhosos da força e importância que a enfermagem tem. Para a enfermeira assistencial do HU, Anita de Moraes, 42 anos, a situação no momento é complicada. Porém na unidade hospital está tranquilo. Não tiveram um excesso de pacientes com suspeita ou de casos confirmados do coronavírus. “Em 20 anos de profissão eu nunca tinha me deparado com uma situação como essa. Então, é difícil! Precisa pedir muito a Deus, pensando que tem pacientes aqui que precisam da gente mais do que a nossa família. Se eu não vir, se eu desfalcar meu plantão, a minha equipe vai ficar sem a minha presença, pacientes podem ficar sem atendimento. Eu preciso deles e eles precisam de mim”, comenta. Sobre a questão do distanciamento da família, a enfermeira não segura a emoção. Embarga a voz para falar do assunto. “Para a Anita mãe, avó, filha e esposa é muito difícil. Eu só não estou isolada do meu esposo e da minha filha menor. Há mais de 20 dias que não vejo ninguém. Quando chego em casa, praticamente eu tenho que higienizar toda a minha roupa. Ninguém encosta em mim e nem na minha cachorrinha. Todo mundo sabe que não pode me beijar e me abraçar. É muito difícil, pois minhas filhas são apegadas comigo e meu neto também. Estou morrendo de saudade”, finaliza.

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