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Protesto escancara ilegitimidade e dependência rodoviária no país, diz especialista da Unicamp

ARIADNE GATTOLINI - AGATTOLINI@JJ.COM.BR | 03/06/2018 | 05:20

A paralisação do país por dez dias consecutivos, com aprovação de 87% da população, segundo pesquisa da Datafolha, trouxe duas vertentes à discussão: o despreparo e a falta de legitimidade do governo Temer para resolver o impasse e a matriz de transporte, ora completamente dependente das rodovias.

Para o professor de Ética e Filosofia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Dr. Roberto Romano, quem vai pagar a conta do protesto será o povo, à custa de cortes na saúde, na segurança e na educação.

A sua crítica se estende ainda ao sistema político brasileiro, que continuará sob a égide de um processo eleitoral arcaico, que não trará mudanças reais, nem mesmo após a atuação da Lava Jato, que não mudou a corrupção estrutural. Romano é pessimista quanto às propostas dos candidatos a presidente nas próximas eleições, ainda incipientes e incapazes de serem ouvidas pela massa brasileira.

O JJ foi ouvir ainda o professor Orlando Fontes Lima Jr, professor-titular em Logística e Transportes da Unicamp. Para ele, a solução do transporte no interior paulista passa pela implantação de ramais ferroviários entre as cidades e o maior incremento das ciclovias. Ambas as entrevistas são exclusivas.

‘Não há candidatos para a massa’

ROBERTO ROMANO, PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA DA UNICAMP

A recente paralisação dos caminhoneiros foi considerada por muitos como mais uma marca de incompetência gerencial do governo Temer. O senhor concorda com isso? Como viu o movimento e seu desfecho?

O problema com o governo Temer não reside apenas em sua equipe ministerial e de segundo escalão mais política do que técnica. Se digo “mais política” entendo com o enunciado o fato de que o ministério é composto por velhos integrantes do Legislativo, mais afeitos aos tratos espúrios de compra e venda de votos do que ao jogo franco e democrático. Fora o deputado Marun, que logo aprendeu as manhas dos partidos tradicionais no “é dando que se recebe”, todos são velhas raposas que não percebem a realidade social, econômica e cultural dos eleitores que pagam imposto. Assim, todos os problemas mais graves do Brasil precisam esperar, no entender daqueles integrantes do governo, pelos interesses grupais, partidários e regionais de quem está perto do presidente da república. A tática conhecida vulgarmente como “empurrar com a barriga” sem nada resolver. Além da equipe inepta em termos técnicos, o próprio chefe de Estado é interino, nunca teve carisma de liderança política de destaque nacional, não mostra qualidades e vontades para decidir no momento certo. Ele aprecia o poder, mas é inapetente quando se trata de exercer o comando. Veja-se a diferença : Itamar Franco herdou um país caótico, por culpa de Sarney, muito similar a Temer, com inflação assustadora e corrupção idem. Ele escolheu uma equipe competente de governo que elaborou o Plano Real, fez recuar a inflação e seu ministro da Educação, Murilo Hingel, fechou o Conselho de Educação por corrupção. Nada similar no governo Temer. Pelo contrário, as recusas de autorização parlamentar para que ele fosse investigado foram conseguidas a poder de muito dinheiro entregue a parlamentares, numa compra vergonhosa de impunidade. Todos aqueles fatores fizeram com que a autoridade do presidente fosse arruinada. Na crise com os empresários dos transportes, tal falta de autoridade ficou escancarada. Sob qualquer outro governo que tivesse autoridade, o movimento apelado de greve, mas que na verdade foi uma rebelião contra a lei e o Estado, teria sido desmanchado rapidamente, sem os desastres agora sentidos pela população e sem os privilégios concedidos os empresários do transporte à custa de cortes na saúde, na segurança, na educação.

robertoromanoVivemos uma paralisia política e um “autismo” de gestão, tanto no Executivo como no Legislativo, com as decisões tomadas sobre várias questões relevantes e a desmoralização causada pela corrupção sistêmica no Brasil?

Não aprecio o termo “autismo” para falar dos poderes e da sociedade. Existem autistas com muita capacidade de produção e de inteligência, o que não é o caso. O fato é que os operadores do poder público brasileiro se acostumaram aos privilégios e deles não abrem mão. Para obter tais privilégios estão dispostos a vender votos no Congresso, chantagear os ocupantes do Executivo e Judiciário. Eles estão alheios aos problemas do povo brasileiro. A corrupção segue o ritmo desse alheamento, pois eles perderam o vínculo com as necessidades efetivas da sociedade, caíram no jogo eleitoral onde vale tudo, menos uma simples coerência ética.

A Lava Jato vai ajudar a separar o joio do trigo nas eleições de 7 de outubro?

Ajudar, vai, mas apenas atenuar os malefícios. A operação opera com os resultados da corrupção, não ataca seus fundamentos. Ocorre com ela o mesmo que ocorreu com a Operação Mãos Limpas da Itália: nela foram presos muitos políticos sem honestidade, mas não foi modificada a estrutura política italiana. Resultado: passada a era dos processos, os eleitores italianos voltaram a escolher políticos sem honestidade, como é o caso de Berlusconi e similares. Se não for democratizada a ordem interna dos partidos, se eles continuam a ser propriedade de pequenos grupos de dirigentes, que neles mandam há décadas, tudo continua como antes, no Quartel de Abrantes.

Este pleito é o mais imprevisível e sui generis da história política brasileira, por reunir mais que uma dezena de pré-candidatos com pouco a mostrar e muito a dever?

Não apenas o pleito, mas a vida institucional brasileira é imprevisível. A cada hora um dos poderes toma decisões atabalhoadas que impedem pensar o Brasil com respeito e propriedade. O STF, que deveria manter a ordem jurídica intacta, promove modificações desastrosas sem responder por elas. Uma das piores decisões tomadas por aquela Corte é o veto, feito há bom tempo, à cláusula de barreira. Se ela existisse, mais da metade das legendas de aluguel que impedem a verdadeira representação do eleitor, seria vetada. Mas o STF insiste em legislar, de modo desastrado e arrogante. Os erros do STF são respondidos por erros nos demais poderes. Ou seja, reina a anarquia legal e administrativa. A política que resulta é a mais impotente possível, pois retira autoridade dos magistrados, dos parlamentares, do Executivo.

Com cerca de 15% dos votos válidos, um candidato pode ir para o segundo turno da eleição presidencial. Isso mostra que o sistema eleitoral precisa urgente de mudanças, tão urgentes quanto as reformas tributária e da Previdência? 

O problema não reside apenas no cômputo eleitoral. É todo o sistema representativo brasileiro que está viciado. E a reforma política se tornou quase impossível, porque os parlamentares usam seu poder em causa própria, elaboram regras que os favorecem em detrimento da renovação política.

Até que ponto a rejeição recorde de Temer (com a máquina na mão) pode ditar a preferência do eleitorado, pois o candidato que tentar se encostar nos “méritos” do governo atual pode ter respingada nele a aversão ao presidente mais impopular da história?

Temer não tem a máquina na mão. Ela está loteada por partidos, grandes e pequenos, que vendem ao presidente uma ilusória maioria congressual. No regime presidencialista, se o presidente não controla a máquina do poder, o mesmo poder se dissolve por grupos e indivíduos poderosos. Como tais grupos e indivíduos têm o controle de parte da máquina, mas  não conseguem impor hegemonia no conjunto, brota a anarquia e a batalha de todos contra todos. O presidente está tão perdido entre tais grupos poderosos, que supostamente deveriam apoiá-lo, que chegou a pedir, via ministro Marun, ajuda do Partido dos Trabalhadores… notemos o desespero e a ironia da situação.

Existe um choque entre discursos neoliberais e interesses de manutenção do que vemos há anos na política brasileira? 

Existe toda uma política de controle do Estado em proveito de seus operadores, os privilégios. Os neoliberais desejam que as políticas públicas e empresas idem sejam privatizadas ao máximo. Os defensores do Estado, na direita e no governo, desejam o poder para si, com o apadrinhamento de partidários, postos em empresas públicas e mesmo privadas com o fito de sugar recursos para os partidos políticos. Os neoliberais procuram enfraquecer o Estado, colocando nos indivíduos a responsabilidade pela sua própria educação, segurança, saúde. Daí que as receitas neoliberais entram em choque com os defensores do Estado. Quem sofre com tais choques é o contribuinte, que paga as contas de tudo. Vejam a facilidade com a qual o governo abriu mão de recursos para o SUS e outros setores sociais, em proveito dos empresários rebeldes do transporte. E, no governo Temer, os neoliberais não constituem maioria.

O senhor enxerga algum candidato a presidente com a capacidade de diálogo, liderança e coalizão necessários para o país?

Por enquanto só vejo candidatos sem condições de atrair massas aos milhões, de norte a sul do Brasil. Fora Luiz Inácio da Silva e Bolsonaro, nenhum candidato consegue ir além dos índices médios de preferência eleitoral. Não vislumbro, nas propostas apresentadas, nenhum diagnóstico sério dos problemas nacionais, menos ainda indicações coerentes e sólidas de melhorias. Mas ainda temos tempo. Quem sabe um candidato encontre fórmulas mágicas para resolver os problemas brasileiros? Desde que não sejam, como foi muito frequente no passado político nosso, soluções ao modo de Pedro Malasartes…

Solução passa por ciclovia e trens entre as cidades

ORLANDOS FONTES LIMA JR, PROFESSOR EM LOGÍSTICA E TRANSPORTES DA UNICAMP

Discutimos, no Brasil, uma solução logística há 20 anos (pelo menos). Entretanto, continuamos sob a matriz rodoviária? Por quê?

O volume de investimento para implantar uma malha ferroviária como as de outros países com a mesma dimensão é muito grande e os poucos investimentos realizados nestes 20 anos careceram de planejamento adequado.

orlandofontesOs projetos como Expresso Bandeirantes, Ceagesp, com ferroanel, até mesmo o TAV, nunca passaram de discussão. Falta vontade política, recursos financeiros ou viabilidade técnica? 

Um pouco dos três. O ferroanel carece de recursos financeiros pelo alto custo de implantação. O TAV é totalmente inviável, pois não tem demanda. O trem intercidades é, na minha opinião, o de maior potencial de sucesso (extensão das linhas metropolitanas de São Paulo para o interior do estado), mas falta vontade política.

Por que ainda estamos preocupados com estradas, caminhões, enquanto devíamos estar discutindo outras soluções tecnológicas? 

O Brasil no setor de transportes é bem conservador e são muitos grupos empresariais interessados na manutenção da realidade atual. Veja a força recentemente demonstrada pelo setor rodoviarista. Aos poucos algumas inovações tecnológicas vêm alterando este panorama, por exemplo o BRT em várias cidades.

O que o senhor vislumbra para o futuro? Há soluções?

Eu sou um otimista é acho que temos algumas possibilidades de agir dentro da realidade brasileira de  limitação de recursos e com bastante efetividade. No caso da carga, o transporte de cabotagem integrado a uma malha ferrorrodoviária é para mim uma solução que envolve menos recursos com maior efetividade. No caso das pessoas, o caminho é pedalar mais.

Esta nova geração não tem o apelo consumidor do senhor automóvel, que não reina mais na vontade dos jovens. Ao mesmo tempo, querem a utilização de automóveis sustentáveis ou até mesmo outros tipos de transporte alternativos. Daremos conta destes desejos? 

Claro que sim, veja o que aconteceu em São Paulo durante a paralisação dos caminhões. As ciclovias ficaram congestionadas.  Olhe o dia dia da cidade e você vai confirmar que sua afirmação é verdadeira. Os jovens mudaram e em breve mudarão o país.


Link original: https://www.jj.com.br/jundiai/protesto-escancara-ilegitimidade-e-dependencia-rodoviaria-no-pais/
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