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Quando contar histórias vira brincadeira de gente grande

CARLOS SANTIAGO | 21/10/2018 | 19:03

Um menino de seus quatro anos ri às gargalhadas. Minutos depois, ele está com os olhos arregalados, concentrado, tenta não perder nenhum detalhe do que está acontecendo à sua frente. Um tecido esvoaçante, de um azul celeste escolhido à perfeição para aquele momento, balança de forma muito suave pelo ar, na frente dele e da plateia – cerca de 20 crianças da mesma idade.

Em seguida, o voil azul é substituído por uma chita, daquelas de vestidinho de festa junina. A criançada entende que, agora, o mar ficou revolto – e chega mesmo a ‘ouvir’ raios e trovões, porque do violão empunhado pelo artista Rodrigo Moraes agora começam a sair acordes mais graves. Ao mesmo tempo, a parceira de cena de Rodrigo, a professora de Literatura, escritora e contadora de histórias Sueli Patelli, depois de esconder os dois tecidos que usou na cena anterior, agora bate duas tampas de panela uma contra a outra, aumentando a ‘tempestade’.

A plateiazinha está totalmente ‘fisgada’ pela história. A criançada segue acompanhando atentamente Sueli – que, agora com um pedaço de cartolina preta triangular numa das mãos, diz que a tempestade passou. Passou, mas aquele ‘corvo’ está ferido. A ave se machucou porque, na praia, teve o bico cortado por uma lata de refrigerante deixada por alguém. Mais tarde, depois da apresentação/contação, uma menina vem conversar com Sueli Patelli. “Eu sei quem deixou aquela lata de refrigerante jogada na areia da praia. Foi meu pai”, diz, triste, baixando os olhos, ao se lembrar do episódio, ocorrido de fato em uma praia do Guarujá.

Com histórias como essa, co(a)ntadas por Sueli Patelli e Rodrigo Moraes, as lições ambientais, os conceitos de ética e de convivência social vão ganhando forma para as crianças. Sueli é autora de livros infantojuvenis – já tendo publicado O Gato Elias, Terra das Bolachas (sobre amizade), Pet Laranjinha (com questões ambientais), O Armário Enfeitado, Téo (este é um rato de laboratório, contando tudo o que sofre em nome da Ciência). Ela também é autora de uma biografia do padre alemão Francisco Jordan (1848-1918), que foi o fundador da Sociedade do Divino Salvador.

Como professora (no Colégio Divino de Jundiaí), ela foi percebendo que as histórias tinham muita força e se fixavam muito melhor conforme o jeito com que eram ensinadas. Foi convidada a uma contação, pensou “Meu Deus, como é que vai ser isso?”, mas topou o desafio. Na hora marcada para a primeira contação, estava com um chapéu verde (daquele bem parecido com o do personagem de Peter Pan). Contou a história e adorou a experiência.

Se os livros foram nascendo porque ela sentia necessidade de uma linguagem diferente para falar com as crianças sobre diversos assuntos, contar histórias também trouxe outras exigências – e, igualmente, outros prazeres e recompensas. A professora/contadora achou que devia se aprimorar, cursou um ano de teatro em São Paulo – e lembra, hoje, que do tal ‘aprimoramento’, aconteceu algo curioso: em cena, ela precisa cada vez menos de qualquer espécie de artifício ou adereço.

“O que é necessário, de verdade, é sentir a história e contar a verdade”, resume Sueli. O companheiro dela, Rodrigo (também contador de histórias e apaixonado por teatro), desempenha outro papel fundamental em cena: o violão permite trilhas sonoras, sonoplastias, ruídos – os tais ‘efeitos especiais’ que, em cena e ali ao vivo, de pertinho, ganham ainda mais força.

Juntos, Sueli e Rodrigo criaram a Uni Verso e Prosas. A grande paixão são o que a dupla chama de ‘apresentações sociais’, ou seja, sem qualquer custo. Nesse sentido, uma das mais recentes plateias foram as crianças cujas mães são atendidas pelo CRAS do Jardim São Camilo. Ali, a festa foi completa e extrapolou o teatro. Teve bolo, refrigerante, brinquedos – produtos que foram doados por empresas que já aderiram ao trabalho e que são apresentadas como ‘padrinhos’ ou ‘madrinhas’ do projeto.

Fabiane Inácio, da agência de Marketing Digital Thunder, também aderiu – e trabalha, ao lado dos artistas, na busca por novos padrinhos que possam se engajar no projeto e garantir que mais crianças possam sonhar junto com esta dupla que encanta contando histórias. Mais histórias do grupo podem ser encontradas em instagram.com/universoeprosabr.

Foto: Rui Carlos

Foto: Rui Carlos


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