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Quando há fé não existe isolamento social

ÉDI GOMES | 29/03/2020 | 06:00

Neste momento quando não é possível a aglomeração das pessoas devido a progressão do coronavírus (covid-19), líderes religiosos, independentemente do segmento que atuam, se viram obrigados a adaptar suas ações com o intuito de oferecer conforto espiritual aos seus fiéis. O isolamento social alterou a rotina na área da saúde, economia, nas relações sociais e também na religiosas.

E, justamente neste ponto, quando muitos se dirigem a Deus para questionar sobre o vírus, é que os sacerdotes e líderes buscam minimizar o impacto na vida das pessoas e intensificar o exercício da oração, solidariedade e de um abraço, mesmo quando virtual.

Ademir Guido Junior, de 50 anos, pastor da Igreja Batista Aliança Eterna e presidente do Conselho de Pastores de Jundiaí (Conpas), explica que neste momento as igrejas estão seguindo seus cultos de celebrações on-line buscando cumprir com as orientações dos agentes de saúde do município. Segundo ele, na última celebração transmitida pela igreja, mais de mil fiéis acompanharam simultaneamente.

“Orientamos nossos irmãos de igreja a confiar em Deus e praticar suas orações em família, orando pelas nações e pelo nosso país. O salmo 91 é neste momento, nossa calma e paz em nossos corações”, comenta Guido. Casado com Andrea Guido, 50 anos, e pai de Jonatas, 7 e Nathan, de 20 anos, ele frisa que a situação requer privilegiar o momento em família. Além de seguir o culto, também reservar momentos para estudo com a esposa e filhos. “Estamos privilegiando estar em família, fazendo os cultos familiares e muitas vezes discussões e estudos bíblicos também on-line”, comenta.

O isolamento social traz a oportunidade da reflexão. Avaliar diversos aspectos comportamentais e principalmente a ligação com Deus. Para o pastor, a mensagem é de exercitarmos a sabedoria adquirida. “Que Deus dê a cada um de nós sabedoria, paciência e paz para passarmos este momento triste, onde o medo tem sido a pior doença entre as pessoas. Devemos confiar que tudo está nas mãos de nosso Senhor Jesus Cristo”, finaliza.

PASTOR EVANGÉLICO ADEMIR GUIDO JUNIOR

 

REFLEXÃO

“Neste momento espiritual que o mundo atravessa, estamos todos comovidos e muito preocupados com o futuro. No entanto, é um período de reflexão sobre nossas condutas, nossa vida e principalmente de nos conectarmos ainda mais com a nossa fé”. Esta é a avaliação do babalorixá Gihad Abbas, 37 anos, membro da Tenda de Umbanda Caboclo Pedra Preta e presidente da União das Comunidades de Terreiros de Jundiaí e Região (Uniterreiros).

Gihad acredita que a humanidade sairá desta condição muito mais fortalecida e consciente. O seu olhar para os semelhantes será outro. “Os abraços serão mais intensos e cheio de significados. Os lares serão muito mais valorizados. Estamos diante de um inimigo invisível, quase silencioso, que a nada sucumbe senão ao próprio organismo que o combate. Não há dinheiro ou ciência que possa impedir ou reduzir a disseminação da doença, sendo a única solução o isolamento”, completa.

Ele ainda destaca que é no recolhimento, nascido da dificuldade e da dor, que os seres humanos mais evoluem. “Todos nós, com fé e sabedoria, passaremos por este momento nos refazendo para a nova condição fraternal do mundo. Com as bênçãos dos Orixás teremos o necessário para contornar essa adversidade”, conclui.

Os trabalhos na casa estão suspensos, porém cada unidade tem seguido a orientação dos seus dirigentes. “O conforto a distância está sendo o mecanismo utilizado para levar esperança aos praticantes das religiões de matriz afro de Jundiaí e Região”, reforça.

PAI DE SANTO GIHAD ABBAS, UNITERREIROS

 

NOSSA FÉ

O padre Michael Henrique dos Santos, 32 anos, responsável pela Paróquia São João Bosco, no Eloy Chaves, frisa que a orientação agora é cuidar de nós e do próximo. “O avanço desta epidemia é um momento inesperado para todo mundo e tem causado tristeza em todo o mundo”, lamenta.

Ele pontua que a igreja recebeu das autoridades públicas e religiosas as recomendações necessárias neste momento de combate e que devem ser colocadas em prática. “Estamos seguindo os protocolos do Ministério da Saúde, governo do estado, Prefeitura de Jundiaí e também a todos os decretos que nosso bispo diocesano, dm Vicente Costa nos informou.”

Para o pároco, a oração indicada neste momento é aquela que brota do nosso coração. Aquela que é feita com fé e com amor. “Neste momento que estamos passando, a Igreja nos chama a participarmos das missas pela TV ou pelas transmissões que as paróquias têm realizado pelos meios de comunicações em suas redes sociais”, reforça salientando a importância de invocar a proteção materna da Virgem Maria, ela que nunca despreza nossas súplicas em nossas necessidades.

Com este afastamento involuntário, porém necessário, o padre Henrique está sentindo a falta dos fiéis. “Mesmo na distância do momento, tenho incentivado a todos a viverem a fé e a esperança que tudo isso vai passar. E quando tudo isso passar, vamos sair melhores, mais cheios de atitudes, mais caridosos, nos amando mutuamente, olhando com caridade aqueles que mais precisam. Espero que possamos tirar proveito de tudo isso, sendo mais humanos e sobretudo mais tementes a Deus. Não percamos a fé. O momento é de ‘tribulações’ porém não existe vitórias sem batalhas. Que Deus vos abençoe e vos proteja de todo mal”, finaliza.

As missas, catequeses, reuniões e encontros estão suspensos por tempo indeterminado “Para que nossos fiéis paroquianos não fiquem sem a participação da missa disponibilizamos três horários de encontros on-line. Será quarta-feira (19h30); sábado (18h30); e domingo (19h), encerrando com a Bênção do Santíssimo apresentando todos os pedidos e orações que os fiéis encaminha ao sacerdote.

PADRE MICHAEL HENRIQUE, PAROQUIA SÃO JOÃO BOSCO

 

VAI PASSAR

A monja Gen Chime, de 63 anos, discípula de Geshe Kelsang Gyatso Rimpoche, diz que o momento é de união entre todas as religiões. “Estamos separados, mas juntos. Todos sabem de nós e sabemos de todos”, diz.

Segundo ela, uma das coisas mais certas é a impermanência. “No Carnaval nunca pensaríamos estar confinados agora, não é? Porque tudo é impermanente. Essa situação também vai passar. Só precisamos ter calma e serenidade para encontrarmos a melhor solução. Em todo caso vamos cuidar uns dos outros pensando que a saúde de cada um é importante para nós. O isolamento parece ser o que contém a contaminação em grande escala”, acredita.

Neste período, a monja Chime também faz uso dos recursos de comunicação on-line. “Estamos transmitindo live de preces todos os dias às 18h e também gravando vídeos de aulas de meditação para iniciante e outros praticantes. A tecnologia veio mostrar como é importante”, lembrando que o material está disponível no site www.meditaremjundiai.org.br.

Para esta fase de isolamento social, ela aconselha o uso do mantra da Mãe Tara Verde. “É para a libertação do sofrimento. É esse que fazemos todos os dias às 18h meditamos ‘Om tare tutare ture soha. Faça com a gente. É muito bonito”, convida Chime.

MONJA GEN CHIME, CENTRO BUDISTA KADAMPA

 

Igrejas e templos não são mais serviços essenciais

A Justiça Federal no Rio de Janeiro suspendeu nesta sexta-feira (27) os efeitos do decreto do presidente Jair Bolsonaro definindo como serviço público essencial atividades religiosas e o funcionamento de casas lotéricas. A decisão é da 1ª Vara Federal de Duque de Caxias.

A determinação atende a pedido do Ministério Público Federal para que as atividades religiosas e o funcionamento de lotéricas fossem suspensos enquanto durar o período de isolamento social para conter a disseminação do novo coronavírus.

“O acesso a igrejas, templos religiosos e lotéricas estimula a aglomeração e circulação de pessoas”, escreveu o juiz federal substituto Márcio Santoro Rocha.

Na determinação, o magistrado também ordena que a União “se abstenha de editar novos decretos que tratem de atividades e serviços essenciais sem observar a Lei 7.783/1989 e as recomendações técnicas e científicas dispostas no art. 3º, § 1º da Lei 13.979/2020 sob pena de multa de R$ 100 mil”.

Na quinta-feira (26), Bolsonaro editou um decreto tornando essas atividades essenciais em meio à pandemia. Ao encaixá-las nessa categoria, o presidente definiu que elas poderiam continuar em operação mesmo durante restrição ou quarentena em razão do vírus.

O decreto presidencial, porém, faz uma ressalva em relação aos cultos: segundo o texto publicado no “Diário Oficial da União”, o funcionamento da “atividade religiosa de qualquer natureza” deverá obedecer as “determinações do Ministério da Saúde”.


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