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Sucessão familiar: um desafio para os agricultores

NIZA SOUZA | 08/04/2018 | 02:40

A sucessão ainda é um desafio para muitos agricultores. Despertar o interesse dos filhos, ou de pelo menos um deles, para que permaneçam na propriedade e a mantenham produtiva e rentável não é tarefa fácil. Especialmente em cidades como Jundiaí, predominantemente urbana e que sofre com a pressão imobiliária, que avança predatória nas áreas rurais. “Vi muitos aqui na vizinhança venderem suas terras. Alguns porque estavam mais velhos e os filhos não assumiram, outros porque o dinheiro oferecido parecia muito bom. Mas o dinheiro acaba e muitos desses mal conseguiram comprar uma casa”, diz o agricultor Amaro de Oliveira, de 78 anos, produtor de uvas em um sítio centenário no bairro Champirra. Com ele, “felizmente”, a história tem sido diferente. Um de seus filhos, Adalberto, hoje com 53 anos, começou a trabalhar na propriedade ainda jovem, gostou e continua até hoje cuidando dos mais de 100 mil pés de uva do sítio. Seu filho mais velho, Jonatas, de 25 anos, fez um curso de gestão em agronegócio e voltou para ajudar a tocar a propriedade da família.

“É triste, mas a gente vê que a agricultura familiar está acabando. Felizmente, nós estamos conseguindo fazer a sucessão”, diz Adalberto. “É uma alegria ver meu filho e meu neto aqui”, garante Amaro, lembrando que deu continuidade ao trabalho do seu pai, Joaquim Augusto, que comprou as terras em Jundiaí em 1922. “Estamos na quarta geração, são quase 100 anos”, se emociona o patriarca. Apesar do sucesso nessa transição, os três admitem que não são imunes aos conflitos de ideias entre as gerações. O segredo, garantem, é saber respeitar e encontrar o equilíbrio entre a experiência do mais velho e a ânsia por novidades dos mais novos. Um exemplo recente de divergência de opiniões foi a mudança na forma de plantio das parreiras para o “sistema Y”. “A gente faz a vida inteira de um jeito, que está dando certo, daí fica resistente à mudança. Mas tenho que admitir que foi muito bom”, rende-se o avô. No sítio Roseira, no Caxambu, a história é semelhante. Começou também no século passado, com Beraldo Paolini (morto em 1950), italiano que veio para o Brasil trabalhar com a terra, fincando raízes em Jundiaí. “Depois de sua morte, meu avô, Ludovico, e um de seus irmãos compraram a parte dos outros irmãos e continuaram plantando uvas”, lembra Ariana Sgarioni, 28 anos, a quarta geração da família.

Ludovico teve dois filhos, entre eles Solange, mãe de Ariana. “Quando ela casou, meu pai já veio trabalhar no sítio. E ela trabalhava num banco. Além da lavoura, meu avô produzia um pouco de vinho. Em 2001, minha mãe decidiu vir para ajudar na adega”, conta Ariana, que fez faculdade de nutrição. Os negócios cresceram e, além da plantação de uva e da adega, a família abriu um restaurante. “Quando terminei a faculdade decidi vir trabalhar aqui. Hoje, minha família inteira trabalha na propriedade, que é a fonte de renda de todos nós”, diz. A diversidade, acredita Ariana, tem ajudado a manter a família no campo. “A agricultura ainda passa por uma fase difícil. Tem muita especulação imobiliária, muitos agricultores aqui da cidade venderam suas terras para condomínios. Antes de a gente ter a adega, a gente teve uma chuva de pedra, perdemos quase toda a produção, foi bem difícil. Quando veio a adega e o restaurante, a gente tem mais fontes de renda. Além de conseguir agregar valor ao produto. Essas frentes diferentes foram essenciais para conseguir manter a família toda na propriedade. Tendo uma rentabilidade que justifica todo mundo estar aqui.”

Vocação
Segundo especialistas, essa é a diferença entre sucessão e herança. A herança está relacionada aos bens materiais, no caso das propriedades rurais, basicamente a terra. Já a sucessão vai além. Como no caso da família Oliveira, envolve a questão cultural, o conhecimento e as habilidades da atividade que passa de geração para geração. O sucessor recebe mais que uma herança. Ele é responsável pela continuidade da atividade da família. Para o agrônomo Sérgio Pompermaier, da Unidade de Gestão de Agricultura de Jundiaí, a sucessão no campo é um desafio para as famílias, especialmente pela falta de valorização do agricultor. “Ainda faltam políticas públicas, pagamentos por serviços ambientais, por exemplo”, destaca. Entretanto, ele acredita que quem assumir o desafio de dar continuidade à atividade da família e se mantiver no campo vai prosperar. “A demanda por alimentos é crescente. As cidades, as populações estão crescendo. Alguém tem que produzir alimentos. Além disso, o consumidor está mais exigente por alimentos saudáveis. Esse também é um caminho para os pequenos produtores.” Mas ele pondera: “A sucessão não pode ser um fardo para o filho. Cada um tem uma vocação e é preciso respeitar isso”.


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