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Transexuais no Centro de Jundiaí: medo da violência e preconceito

GUSTAVO AMORIM - gamorim@jj.com.br | 24/03/2018 | 20:02

O carro prata com vidro fosco sobe a rua de forma cada vez mais lenta. O motorista abaixa o farol e, ao chegar na esquina, pergunta: “Quanto é o programa”? O frio na barriga impera e o medo, a cada nova abordagem, traz à tona a ideia de desistir. Mas a necessidade faz com que o “embrulho do estômago” seja superado rapidamente. Depois de tantos episódios de rejeição, preconceito, medo e violência – emocional e física -, em parte é essa necessidade que faz as mulheres transexuais Joana, Maria, Judite, Rafaella, Júlia e Yasmin (nomes fictícios) vestirem uma saia curta e partirem para a noite no Centro de Jundiaí. “Ninguém quer ser da rua”, conta uma delas.

AAASem título

Maria revela que já procurou emprego diversas vezes em seus 19 anos de rua. “Já fiz entrevistas e tenho formação, mas quando as pessoas veem quem você é desistem”, conta. Situação parecida viveu Joana. Ela já trabalhou em lojas de shopping na cidade, mas conta que desde que foi demitida por conta da crise, em 2013, não conseguiu mais a recolocação no mercado. “As pessoas não querem empregar uma transexual. Você ainda é mal-vista pela sociedade”. Júlia define a busca por emprego das mulheres transexuais de Jundiaí: “Tem uma hora que você desiste. E a solução é a rua”.

Se já não bastasse o preconceito intrínseco no mercado de trabalho, o dia a dia no Centro de Jundiaí é marcado pela convivência sempre com o risco da violência. “Uma vez o cliente não quis pagar e apontou uma arma na minha cara. Ou eu saía ou eu morria”, revela Joana. “Entrei em um carro com quatro caras dentro. Eles me espancaram, me levaram para o meio do mato e tentaram me estuprar”, diz Yasmin. “Já me roubaram, já me bateram, já arrancaram minha roupa e me jogaram no meio da rua, pelada. Já tive faca no pescoço e arma apontada. Já passei por tudo”, emenda Rafaella.

Dentro do lar, local que deveria ser o primeiro ponto apoio do ser humano, o preconceito e a rejeição também são altos – ao menos inicialmente. Judite revela que saiu de casa aos 18 anos porque o pai não a aceitava. “Até hoje não tenho contato com ele. Só com a minha irmã, mas não a vejo há sete anos”.
Maria foi amparada pela mãe e os irmãos, mas também teve dificuldades com o pai. “Ele não olhava na minha cara. Dizia que tinha criado um filho pra dar neto a ele”, lembra. Um ano depois, a saudade foi maior que o preconceito. Após algumas conversas, o perdão. Hoje, Joana e o pai se respeitam e têm um contato normal.

DESMISTIFICAÇÃO

“Todo tipo de pessoa procura programa com a gente. Homem, mulher, casal, grupo de amigos…”, afirma Maria. Yasmin destaca: “Todo mundo tem desejos. Querem descobrir o diferente. O problema é que ninguém quer expor isso na sociedade”. Segundo as mulheres transexuais, não é incomum um grupo de homens passar por elas fazendo brincadeiras de mau gosto, mas algum tempo depois um deles volta para fazer o programa.

BUSCA POR DIREITOS

Samy Fortes é militante e luta pelos direitos das mulheres transexuais na Comissão de Diversidade Sexual da OAB de Jundiaí. Ela é uma das criadoras do projeto “Todos por Elas”, que de dois em dois meses reúne transexuais para conversas, debates e para ouvir o dia a dia visando encontrar políticas de inclusão e saúde para a sociedade transexual. “A situação de todas elas é bem complicada. Existem relatos muito sérios que ouvimos desde a criação do projeto. Temos uma demanda muito alta, mas também sabemos que elas são inseguras por conta do preconceito e da discriminação”, pondera.

Samy destaca que a busca é pelo empoderamento da mulher transexual. “Somos seres humanos como qualquer outro. Muita gente vê a mulher transexual na rua apenas como um objeto de desejo sexual, mas é um trabalho. E digno como qualquer outro”.

ÓRGÃOS MUNICIPAIS

Procurada, a Prefeitura de Jundiaí declarou, em nota, que junto da Defensoria Pública do Estado de São Paulo fará um mutirão para mudança do nome de registro de travestis e transexuais em 17 de maio deste ano. A administração também revela que realiza o Fórum de Empregabilidade, no qual busca conscientizar as empresas sobre a necessidade de contratação de pessoas LGBTs, além de reuniões com a sociedade. A prefeitura destaca que está elaborando também um acolhimento específico para esta população em situação de rua no Centro. A Guarda Municipal de Jundiaí também afirmou que incluiu, em 2018, a codificação por agressão ou lesão corporal sofrida pela população LGBT em seu protocolo de ocorrências. A GM completou dizendo que há três anos participa de cursos e palestras junto à Assessoria de Políticas Públicas para a Diversidade Sexual.


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