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Transporte individual cresce acima da média em Jundiaí

GUSTAVO AMORIM | 15/07/2018 | 05:00

Na contramão do que acontece nas principais cidades do mundo, o transporte individual está crescendo cada vez mais em Jundiaí. São 318 mil veículos registrados na cidade, número 52,7% maior que em 2008, segundo dados obtidos com exclusividade pela reportagem com a Prefeitura de Jundiaí. À época, a cidade registrava 208.525 veículos entre carros, caminhões, ônibus, motos, vans e outros. Entre 2010 e 2018, porém, o número de passageiros que utilizam o transporte coletivo caiu de 130 mil para 120 mil por dia útil na cidade. “Nos preocupa bastante esse dado”, afirma Silvestre Ribeiro, gestor da Unidade de Gestão de Mobilidade e Transporte da prefeitura.

Segundo ele, há explicações para esse aumento de veículos em detrimento do transporte coletivo no município. “Tivemos alguns anos de incentivo do Governo Federal para a compra de veículos. A cidade também cresceu bastante em população neste período (de 379 mil para 409 mil entre 2010 e 2018, segundo o IBGE), e o próprio cidadão tem uma referência de salário mais alto do que em outras cidades. São várias variáveis”, aponta o gestor. Gabriel Feriancic, professor do departamento de engenharia de transportes da Universidade de São Paulo (USP), destaca, por outro lado, que a diminuição do uso do transporte público foi percebida em todo o Brasil por conta da crise econômica.

“Os estudos mostram que o pico da utilização desse serviço aconteceu nas épocas de maior força econômica do país. Na prática, as pessoas estavam empregadas e se deslocavam diariamente para o trabalho e afazeres em geral”, explica o especialista. O transporte individual por aplicativos é a mais nova ramificação desta teia urbana. A Amajur, associação dos motoristas de transporte por aplicativo da Região de Jundiaí, estima que são 2 mil pessoas fazendo o serviço de transporte privado individual por aplicativos na cidade. “Não traz uma mudança importante nos ônibus, mas claro que afeta a circulação de veículos na cidade”, aponta o professor.

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Cidade motorizada

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Segundo os dados da Prefeitura de Jundiaí, há um veículo automotor para cada 1,2 habitantes em Jundiaí. O número é maior do que todas as capitais do Brasil. Curitiba, cidade mais motorizada do país, tem 1,8 carro por habitante, enquanto em São Paulo são 2,2. Macapá, capital do Amapá, registra um veículo para cada 7,7 habitantes. Silvestre revela ainda que a velocidade média dos veículos nos horários de pico em Jundiaí é de apenas 14 km/h. Para efeito de comparação, segundo dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-SP), São Paulo registrou em 2017 a velocidade média de 25,5 km/h nos horários de pico.

Reflexos

O gestor explica que esse aumento de veículos no município traz consigo diversas questões que devem ser analisadas pela administração municipal. “O aumento de veículos gera cada vez mais necessidade de investimento em infraestrutura viária, fiscalização de trânsito e cumprimento das regras de sinalização pelos motoristas. Além desses fatores, quando olhamos para a mobilidade, olhamos para o deslocamento de pedestre”, destaca Silvestre.

Feriancic acredita, porém, que a principal forma de desenvolver e melhorar o fluxo de uma cidade é através do transporte público. “O primeiro desafio é ter um transporte coletivo que faça o deslocamento rápido entre os pontos.Só assim o público vai preferir o ônibus em vez do veículo particular”, explica. O professor ainda destaca: “Quanto mais gente usar o transporte coletivo, há menos necessidade de infraestrutura viária, há melhora na poluição e claro que há mais pessoas em menos espaços da via”.

Mudanças?

Segundo Silvestre, a Prefeitura de Jundiaí projeta a semaforização inteligente das vias para fazer com que o cidadão dê preferência ao transporte público, além da readequação das linhas, que já estão sendo realizadas. “A partir de agosto o usuário também vai sentir melhora na qualidade dos coletivos”, promete. De 2018 para 2019, o gestor explica ainda que pretende fazer a adequação e integração dos planos viários e diretor da cidade. “Olhamos para o deslocamento de pedestre e para a ciclovia como alternativas”, diz. Segundo ele, há previsão de construção de 7,5 km de ciclovias na cidade através do projeto do BRT, que foi modificado pela atual gestão e está em análise na Caixa Econômica Federal para liberação dos recursos federais.

“Nesse sentido, serão 2,5 km na avenida Jundiaí, 2.15 km na Osmundo dos Santos Pellegrini, e alguns trechos da avenida Manuela Lacerda (Anhangabaú), na Avenida Pedro Blanco e na Coleta Ferraz de Castro, totalizando 1,6 km.” Silvestre também destaca a readequação do que chama de “gargalos” do fluxo de trânsito como fundamentais para a melhora no sistema viário. “São obras fundamentais, mas que não podem ser feitas de uma vez”, pondera. O JJ já abordou o projeto de ampliação da Avenida Antônio Frederico Ozanam, por exemplo.

Passageira de ônibus há 30 anos

Terezinha reclama da falta de educação de alguns passageiros | Foto: Rui Carlos

Terezinha reclama da falta de educação de alguns passageiros | Foto: Rui Carlos

“Eu só tenho a reclamar da educação das pessoas”. É assim que Terezinha de Proença fala sobre o transporte urbano de Jundiaí. Nascida em Passo Fundo, cidade no interior do Rio Grande do Sul, ela sai do Parque dos Ipês e vai até o Anhangabaú há 30 anos de ônibus, desde que se mudou para Jundiaí.

“Os ônibus que eu pego são bons. Não tenho do que reclamar, nem dos motoristas e dos cobradores”, diz a senhora de 75 anos que já não tem nem mais o sotaque gaúcho. “Tenho uns erres puxados”, brinca. Terezinha esperava sentada um dos ônibus que pega para ir ao trabalho todos os dias no Terminal Central, em plena hora do almoço. Ela lembra que o serviço foi melhorando com o passar dos anos e percebe que o comportamento dos jovens muitas vezes não é o correto, em sua visão.

“Tem gente que coloca o pé nos bancos, tem gente que não dá licença, tem gente que ouve música alta e reclama se a gente pede para abaixar. Sabe, eu não preciso ficar ouvindo”, disse a cozinheira. Ela só espera, entretanto, que esse comportamento mude: “Já passou da hora, não é?”.

Motoboy há 23 anos: falta educação

Xororó Motoboy diz que está preocupado com comportamento no trânsito | Foto: Gustavo Amorim

Xororó Motoboy diz que está preocupado com comportamento no trânsito | Foto: Gustavo Amorim

Aos 53 anos, João Antônio Fernandes é claro em seu discurso: está preocupado com o aumento do número de carros em Jundiaí. Há 23 anos trabalhando como motoboy, o popularmente conhecido como Xororó Motoboy viu a cidade crescer, o serviço aumentar e o risco para os motoristas subir na mesma proporção.

“Eu tô cismado com o trânsito do dia a dia. Principalmente nos horários de pico, a gente que trabalha com moto fica muito apertado, muito espremido entre os carros e os ônibus. Tem que ser muito esperto para conseguir andar hoje”, detalha.
Ele explica que sente uma impaciência misturada com pressa em todos os pontos da cidade. “Todo dia tem um acidente. Seja de ônibus, de carro, de caminhão ou de moto. Todo dia”, alerta.

Ele conta que percebe uma falta de conscientização entre as pessoas no trânsito. “E acho que é geral viu? Vejo tanto motorista de carro como de moto ou de ônibus pensando só em si. No trânsito você tem que olhar o todo, uma coisa que você faz de errado pode acabar prejudicando outra pessoa. Falta muita educação”, diz o homem que trabalha com serviços durante o dia e faz entregas para um restaurante no período noturno. “Serviço tem bastante, ainda bem. Conseguimos viver com isso”, diz ele, que não pensa em largar a profissão.

De carro há 40: não há consciência

Wilson diz que não deixa de andar de ônibus só porque tem carro | Foto: Rui Carlos

Wilson diz que não deixa de andar de ônibus só porque tem carro | Foto: Rui Carlos

Wilson Pedro Maceu tem 67 anos e dirige há pelo menos 40 anos em Jundiaí. Na infância, adolescência e parte da juventude, lembra que andava de bicicleta pela cidade, mas quando teve a oportunidade de comprar um veículo não teve como deixar para a segunda vez. “Jundiaí é uma cidade com montanhas. Em alguns lugares a gente andava, mas não era fácil.”

Para ele, o carro no passado era um item de luxo, mas que atualmente passou para a categoria de necessidade. “Hoje eu uso o carro para trabalhar, é uma ferramenta que eu e muita gente temos.” Wilson destaca, entretanto, que quando não tem pressa de horário ou necessidade de levar coisas pesadas, ainda prefere o transporte coletivo. “A pé eu também faço, mas só nos lugares próximos. Quanto mais você deixa de usar o carro quando não existe essa necessidade, você dá espaço para que o ônibus, um táxi possa fazer o seu serviço. Mas não é todo mundo que tem essa consciência”, aponta aposentado, mas que ainda trabalha como responsável pela manutenção geral de uma empresa no Jardim Pacaembu.


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