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Turismo na Serra do Japi traz danos irreversíveis

NATHÁLIA SOUSA | 28/06/2020 | 05:00

Embora tenha espaços atrativos aos aventureiros, a Serra do Japi não é um lugar para fazer turismo. O motivo para tal proibição vai desde a preservação ambiental, já que a reserva verde foi declarada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 1994 como Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, até a segurança dos próprios transeuntes, pois as trilhas e cachoeiras podem ser perigosas para quem não tem o devido conhecimento do local.

Sempre houve invasões à Serra, já que é muito difícil controlar o espaço, cabendo ao Grupamento Florestal da Guarda Municipal de Jundiaí (GMJ) a fiscalização. Aos que desejam adentrar a Serra, é necessário o agendamento de uma visita monitorada. No entanto, mesmo vivendo uma pandemia e sob o decreto de isolamento social, muitas pessoas ainda vão até a Serra para praticar esportes ou passear.

“Até nas propriedades privadas é proibida a entrada turística”, diz o inspetor do Grupamento Florestal da GMJ, Adilson Marestoni. Com várias cachoeiras, como a da Curva e a Morungaba, que já foi aberta, mas está fechada ao público, a Serra vira alvo de pessoas que querem lazer. Mas Marestoni alerta que “além da fauna e da flora, é importante preservar a água. É proibida a entrada nas cachoeiras. Vir fazer trilhas é proibido também. Visita na Serra é só monitorada, com monitor cadastrado na prefeitura”, diz ele.

Em caso de invasões, o inspetor conta que “a guarda, na fiscalização e controle aos acessos do território de gestão, orienta os invasores para que saiam do local, porque se trata de uma área de reserva e proteção ambiental.”

Superintendente da Fundação Serra do Japi, Vânia Plaza Nunes, explica que as pessoas não respeitam. “A gente vem num caminho que visa a preservação, mas, ao contrário de antes, agora as pessoas vêm entrando aos poucos, inclusive em áreas de reserva biológica”, diz ela sobre as invasões nos pontos de maior intocabilidade da Serra.

Ainda sobre a pandemia, Vânia diz que houve aumento de pessoas que frequentam a Serra neste momento. “Não adianta gostar da Serra do Japi e ir andar de bicicleta lá, gostar é deixar ela quieta e aproveitar os recursos que ela pode nos oferecer. Podemos levar doenças nossas ou de animais domésticos para animais silvestres. Alertas são dados e a covid-19 é um”, explica sobre a doença que, como tantas outras, nasceu da mutação de um vírus presente em animais silvestres.

“As pessoas não pensam no todo, o solo, a água, os animais, a vegetação, e pensam que podem adentrar. É quase uma relação ‘esquizofrênica’ em que a pessoa quer preservar, mas quer estar lá, fazendo trilha, entrando como se fosse na sua casa sem bater na porta”, explica Vânia. “Quando perturbamos um ambiente preservado, mais cedo ou mais tarde a gente recebe os reflexos.”

Mesmo com as orientações para que os indivíduos permaneçam em casa nesta pandemia, algumas pessoas saem sem necessidade. E não é diferente com a Serra. “Nossa orientação é para que as pessoas não adentrem a área da Serra do Japi e façam o isolamento social em casa”, alerta Marestoni sobre as barreiras promovidas aos finais de semana, principalmente no Bairro Santa Clara, que tem uma das principais entradas da Serra.

PRESENÇA HUMANA
Havia latinhas de cerveja, embalagens e sacolas plásticas na estrada ao lado de um curso d’água. Ali, o caminhão da coleta do lixo chega, mas em outros pontos não. Por isso é importante que as pessoas, que já vão de forma ilegal à Serra, não deixem lixo pelo caminho. Por este motivo, e por outros, a interferência humana é tão perigosa ao equilíbrio da natureza.

Na Serra, há plantações de eucalipto que vão embora por metros e metros e parecem se mesclar com a vegetação nativa nos pés dos morros. Estas áreas são focos comuns de incêndios, como um que ocorreu no último domingo (21). “Incêndios nessas áreas, onde há eucalipto, podem propagar o fogo para a área da mata nativa. Engloba tudo, balão, bitucas de cigarro e ações criminosas”, conta Marestoni sobre os focos de fogo que ameaçam o ecossistema local.

“Essas propriedades são particulares, mas estão na reserva, então a guarda tem a incumbência de ir apagar. Mas os donos dos locais precisam fiscalizar”, conta o inspetor sobre as ocorrências de incêndios em propriedades privadas na Serra que, segundo ele, é a maior ameaça à preservação local, junto à urbanização sem autorização, de pessoas que invadem áreas indevidas.

“Toda vez acontece, é por alguém. Não teve nenhuma vez em que foi como no Cerrado, com o calor e o tempo seco. Quando as pessoas tiram o eucalipto, não posso te garantir, mas um dos artifícios pode ser o fogo. O solo da Serra é raso, é uma fina camada de matéria orgânica sobre pedras”, conta Vânia sobre o perigo das queimadas para a vegetação local, de difícil recuperação.

O guarda James, que trabalha já há seis anos no Grupamento Florestal da Guarda Municipal, diz que a preservação é contínua. “Os esforços são constantes e sucessivos. Ainda dá para melhorar bastante a legislação e dentro do que é competido tem melhorado. A lei das queimadas, por exemplo, melhorou a preservação”, conta ele sobre o trabalho.

“A conscientização é o que de fato preserva. Em muitos lugares a natureza está devastada, porque as pessoas acham que só têm direitos e não têm deveres”, diz Vânia sobre a alternativa para que a Serra continue sendo de todos os jundiaienses.

 

Fundação promove palestras on-line

A Fundação Serra do Japi tem promovido palestras on-line neste período de pandemia para que as pessoas tenham mais conhecimento da importância do trabalho de preservação da Serra. No entanto, mesmo com a proposta de atrair as pessoas para esta discussão, Vânia Plaza Nunes diz que a maioria das pessoas interessadas ainda é pesquisadores da ecologia e da biologia, com menos alcance à sociedade geral.

Uma das pesquisadoras que tem uma palestra on-line no canal da Fundação é Eleonora Zulnara Freire Setz. Ela, que leciona na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tem estudos sobre a fauna da Serra do Japi. “Estou focando nos felinos e uma coisa que estamos investigando é que, por exemplo, em algumas trilhas há a presença de ciclistas e isso pode ter alguma interferência para estes felinos. Os bichos podem perceber uma certa regularidade das pessoas e se afastarem”, comenta ela sobre a importância de se ter uma limitação do espaço em que os ciclistas podem circular, mas tal medida dependeria de proprietários da Serra, já que as áreas privadas compõem a maior parte do espaço.

“Como eu ia durante a semana, eu não tinha muito contato, mas parece que aos finais de semana há muitos ciclistas na Serra”, diz Eleonora sobre as visitas suspensas até de pesquisadores, para que seja evitada um possível contaminação de coronavírus causada por humanos nos animais. “A Serra tem uma pressão enorme de loteamentos e os proprietários não têm muito valor econômico nas terras, porque não dá para plantar. O usufruto da Serra pelas pessoas, o contato, talvez fosse algo que conscientizasse”, diz Eleonora sobre a aproximação do público com o espaço.

As palestras podem ser acessadas no canal da Fundação Serra do Japi no YouTube.


Link original: https://www.jj.com.br/jundiai/turismo-na-serra-do-japi-traz-danos-irreversiveis/
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