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Uma mulher predestinada a articular a Cáritas Diocesana

| 22/06/2014 | 00:15

Os 32 anos de formação em assistência social deram a Maria Rosangela Moretti uma experiência que permite a ela passear pelos mais diferentes setores: da iniciativa privada ao poder público.

Mas foi na Cáritas Diocesana de Jundiaí que esta jundiaiense descobriu sua principal vocação: articuladora. Afinal, ela coordena as dez pastorais existentes na cidade para o desenvolvimento de políticas em prol da assistência social. Passados 17 anos desde que aceitou este desafio, Maria Rosângela experimentou dificuldades, mas na lembrança guarda apenas histórias com finais felizes, conforme revela nesta entrevista ao JJ Regional.

Jornal de Jundiaí – Como tem sido esta sua trajetória até chegar à coordenação da Cáritas?

Rosângela Moretti – Tudo começou com o convite que recebi de Dom Amaury Castanho, em 1997, para implantar a Cáritas, que até então não existia na Diocese de Jundiaí, coordenada pelo padre Jorge Demarchi. Este histórico é muito interessante, já que foi durante a assembleia, realizada em 1996 pela Igreja Católica, que foi deliberado que a Cáritas seria implantada na Diocese de Jundiaí, como fruto do desejo de toda a comunidade em agregar este serviço promovido pela Cáritas em todo o Brasil. 

JJ – Antes de chegar à Cáritas você teve outras experiências. Você acredita que elas te ajudaram nesta sua atual função?

RM – Meu começo como profissional da assistência social foi na área da saúde, quando recebi este convite para implantar uma organização internacional, no caso a Cáritas, que era novidade em Jundiaí. Isso me obrigou a conhecer a Cáritas Brasil espalhada pelas dioceses. O grande desafio neste processo era trazer a proposta para a Diocese de Jundiaí. Acontece que dom Amaury queria algo a mais: na época, o trabalho desenvolvido pelas Cáritas existentes era de cunho emergencial e, em Jundiaí, ele queria que se trabalhasse junto às pastorais sociais, no sentido de articular todas para um único olhar. Esta exigência constava no primeiro estatuto elaborado em 1997. Neste momento, eu me tornei uma militante social nas pastorais, trabalho que desenvolvia em uma sala no SOS (Serviço de Orientação Social).  

JJ – Você se considera uma predestinada a desenvolver o trabalho de assistência social?

RM – Sim, apesar de que meu começo como profissional da assistência social não teve relação com direta com as políticas públicas. Eu tenho uma experiência em empresas, nos setores de cerâmica, metalúrgica. Em seguida, fui para a saúde, quando trabalhei no Ambulatório de Especialidades, com passagens por Franco da Rocha, onde criei grupos de prevenção à diabetes que incluiu os moradores do Juqueri. Em Jundiaí, ainda na saúde, trabalhei com pessoas atingidas pela LER (Lesões por Esforços Repetitivos) e finalizei na  previdência social. Ou seja, independentemente do setor que estivesse atuando, eu sempre tive um olhar de que o atendimento individual é importante, pois ajuda aquela pessoa, enquanto que o grupo modifica toda uma sociedade. Então, quando eu cheguei na Cáritas eu aproveitei toda esta experiência para uma realidade baseada na militância de movimento social. 

JJ – Já que você tocou na questão das políticas públicas, você acredita que Jundiaí está bem servida para atender as necessidades sociais?

RM – Eu acredito que a política pública de assistência social está acontecendo nos municípios. Há 20 anos, o que se tinha eram as entidades que atendiam às necessidades sociais por caridade e meios próprios. Com a Lei Orgânica da Assistência Social, as ações ganharam estrutura de política pública, ou seja, as entidades se tornaram parceiras, mas a primazia é do Estado, cabendo aos municípios o seu cumprimento. Tudo isso foi uma conquista dos movimentos sociais. Então, temos, sim, políticas públicas implantadas por governos anteriores, por meio da Secretaria de Assistência Social e, mais recentemente, pelo Cras (Centro de Referência de Assistência Social), que permite um trabalho articulado para atender as pessoas em situação de vulnerabilidade, que ainda existem, mas em menor número e com uma proteção social.

JJ – Ao longo destes 17 anos que você está à frente da Cáritas, alguns momentos foram marcantes, como o vivido no antigo Cadeião de Jundiaí. Que lição você tirou?

RM – Na verdade, nós tentamos, na ocasião, desenvolver um trabalho junto com a Pastoral Carcerária, no sentido de minimizar os casos de tuberculose registrados na Cadeia Pública. O grande problema que enfrentamos foi a falta de médicos, que seriam contratados. Além disso, existiu o entrave burocrático, já que a Secretaria de Saúde de Jundiaí não poderia contratar, o mesmo valendo para o Estado. Esta proposta era provisória, mas não conseguimos colocá-la em prática, pois nenhum médico se inscreveu para atender aos detentos. Eu lembro que fui até a TV para pedir, sem êxito. Felizmente, dois anos depois os detentos foram transferidos para o Centro de Detenção Provisória (CDP), onde existe uma estrutura para atendê-los.  

JJ – Você acha que esta resistência não existe mais, que as pessoas estão mais abertas a ajudar?

RM – Eu acho que ser solícito quando chamados para participar de campanhas em casos pontuais é fácil. Por outro lado, as dificuldades surgem em situações crônicas, de vulnerabilidade, que pedem um trabalho continuado – e esse trabalho é o desenvolvido por todas as pastorais. É um trabalho semanal que necessita de voluntários. Hoje a falta de pessoas dispostas a trabalhar voluntariamente é nosso maior desafio.     

JJ – Como se explica esta realidade de falta de voluntários?

RM – Acho que podemos apontar diversos fatores, como uma cultura de individualismo que norteia a sociedade contemporânea. Outro fator que pode ter contribuído para esta escassez de voluntários está no fato das mulheres, que sempre foram maioria na base das entidades, estarem no mercado de trabalho.  Então, hoje, os agentes das pastorais são as pessoas da comunidade. A líder da Pastoral da Criança é aquela mãezinha que foi atendida e conseguiu superar a pobreza. Além disso, as pastorais têm crescido e chegado a lugares onde antes não estavam presentes, como o Novo Horizonte. Quando chegamos ali, não havia nenhuma pastoral. O atendimento era prestado em uma sala minúscula, cedida pela Igreja do bairro. Esta expansão também aumentou a necessidade de mais voluntários para atender problemas que até então não existiam, como crianças envolvidas com drogas, crianças violentas, entre outras problemáticas e situações que fazem, inclusive, com que as pastorais se afastem também.


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