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Vai ter Copa? Alguns jundiaienses não estão nem aí

GUSTAVO AMORIM | 11/06/2018 | 04:00

Espelhos dos carros em tons de verde e amarelo, chapéu, buzina, barulho, muita festa, reunião na casa dos amigos, churrasco, sair do trabalho mais cedo – ou entrar mais tarde -, ruas vazias, cidade pintada com as cores da bandeira. Esse é o clima que normalmente acompanha os jundiaienses e o brasileiro antes de uma Copa do Mundo. Mas não é o que está sendo visto pelas ruas da cidade em 2018. E duas pesquisas realizadas pelo Jornal de Jundiaí nas redes sociais mostram o espírito do jundiaiense quatro dias antes do início do Mundial da Rússia.

No instagram, 56,1% dos 1.252 internautas que responderam à questão “Você está interessado na Copa do Mundo e vai assistir aos jogos do Brasil?” afirmaram “Não! Tenho outros interesses”, enquanto os outros 43,9% se mostraram solidários à seleção de Tite: “Sim! #partiuhexabrasil”. No Facebook, a diferença foi ainda maior: 78% dos 828 votos computados entre quarta-feira (6) e quinta-feira (7) eram de pessoas indiferentes ao Mundial, enquanto 22% vão torcer pelo sexto título na história da seleção canarinho.

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Kennedy Lombardi é um dos jundiaienses que está “dando de ombros” para a Copa do Mundo da Rússia. O servidor público conta que só assiste futebol em momentos como esse, mas que dessa vez vai passar longe da televisão, rádio ou internet. “Sinceramente? Nunca vi tão pouco clima de Copa como agora. A gente está passando por uma fase muito complicada, tanto política como economicamente, e acho que o povo está mais preocupado com isso”, revela o homem de 51 anos.

A aposentada Cecília Meneghetti também não quer saber de Neymar, Tite e cia. “Eu só lembrei da Copa porque meu professor de ginástica disse que não vamos ter aula na sexta-feira que vem (dia 22)”, lamentou a idosa de 61 anos, destacando que prefere os noticiários relativos a Brasília. Na data, o Brasil enfrenta a Costa Rica às 9h.

Mas se engana quem acredita que a falta de interesse pelo futebol e pela Copa do Mundo fica apenas em Jundiaí. Uma pesquisa divulgada em maio pelo Instituto Datafolha apontou que 41% dos brasileiros não têm interesse pelo esporte considerado a grande paixão nacional. Mesmo com a boa fase técnica da seleção brasileira, a expectativa pelo hexa também é menor do que nos dois últimos Mundiais, aponta outra pesquisa da mesma instituição: 47% dos brasileiros confiam no título em 2018, contra 66% em 2014 e 60% em 2010.

Para o cientista social, ex-diretor da ESEF e professor do Instituto Federal de Jundiaí, Pedro Rocha Lemos, a conjuntura sócio-político-econômica é a explicação para o que ele aponta como uma mudança de cultura na população brasileira. Lemos reitera, inclusive, que o cidadão está “mais cético quanto aos símbolos nacionais, como a seleção brasileira de futebol”.

“Não acredito que os 7 a 1 da Alemanha há quatro anos seja um fator tão determinante, mas vejo que, desde as manifestações de junho de 2013, o brasileiro vislumbrou a possibilidade de mudanças no país. Só que, como essas mudanças não ocorreram, há uma descrença, uma decepção geral do cidadão com o parlamento brasileiro, com a política. Tudo agravado pelo momento da economia e a proximidade das eleições, onde ninguém sabe o que vai acontecer”, pondera.

Lemos explica que a distância dos atletas, que moram em seu maioria na Europa, do povo também atrapalha na formação do ídolo. “Não é mais como antigamente, quando os jogadores do seu clube estavam na seleção. A idolatria hoje é global. Essa falta de aproximação, mesmo com as redes sociais, dificulta a empatia entre público e atleta, ou seja, também tem a ver com a globalização. São muitos fatores”, explica o cientista social.

O jundiaiense Messias Raimundo imagina, entretanto, que a animação vai mudar caso a seleção comece a ganhar os jogos e conquiste o título. “Nesse momento o povo se solta”, diz. Pedro Lemos acredita que pode haver uma euforia nesse caso, mas que não vai ser suficiente para reverter o atual quadro de descrédito cultural. “Governos já utilizaram a seleção como massa de manobra. Se o presidente Michel Temer ousar fazer isso este ano, acredito que será muito mal visto pela população e, claro, bem pior para o governo federal”.

 

 

Kennedy Lombardi não quer nem saber de assistir à Copa do Mundo este ano: “Estamos preocupados com o futuro” foto: Rui Carlos)

Kennedy Lombardi não quer nem saber de assistir à Copa do Mundo este ano: “Estamos preocupados com o futuro” foto: Rui Carlos)

 


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