Jundiaí

Violência doméstica cresce 149% durante mês de março


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Crédito: Reprodução/Internet
Lidar com as diferenças do convívio em isolamento acompanhado pelo estresse da pandemia pode gerar conflitos que, muitas vezes, se tornam caso de delegacia. A cada dois minutos uma mulher é vítima de violência doméstica no país. Além disso, oito em cada dez feminicídios acontecem dentro de casa, segundo o Atlas da Violência de 2019. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, só no mês de março foram registradas 132 ocorrências de violência doméstica em Jundiaí, 39 destas durante o período de quarentena. Do total, 75% se deram dentro da residência das vítimas. O número representa um aumento de 6,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os números, se comparados com o mês de fevereiro deste ano, que teve 53 ocorrências, representam um crescimento de 149% de um mês para outro. Inclusive, devido ao grande número de casos, durante a pandemia já é possível registrar queixas de violência pela delegacia eletrônica. São muitos os indícios que mostram o aumento de casos neste período. É o que explica a psicanalista Ana Cláudia Fossen. "Certamente o aumento do número de casos de violência doméstica tem uma ligação com o isolamento. O clima mundial de incertezas na economia e na saúde proporcionam altas doses de tensão em famílias onde há abusadores ou sistemas de relacionamento baseados na agressividade", diz. E completa: "A violência doméstica à mulher ou mesmo às crianças geralmente está ligada também ao consumo de álcool e drogas que, por conta do confinamento, devem ter seus índices aumentados”. Esse comportamento é estudado pela psicologia desde a década de 1950, segundo a psicóloga Margareth Arilha. "Várias experiências mostram que basta colocar pessoas em confinamento para que processos de violência sejam desencadeados. A falta de espaço, as restrições financeiras, materiais e alimentares, bem como as dificuldades para acessar os mecanismos de proteção decorrentes da máquina estatal despertam fragilidades que provocam o comportamento violento do indivíduo, seja na relação com o outro ou consigo mesmo", explica, destacando também os indícios de depressão, síndrome do pânico e automutilação relacionados. Sandra Correa (nome fictício), de 48 anos, sofreu violência doméstica por cinco anos em seu casamento, e afirma que este é um trauma que se leva para a vida toda. "Eu apanhava na frente dos meus próprios filhos e não sabia como reagir. Sofri calada por muito tempo e até me senti culpada, mas não sabia como sair daquela situação", relembra a administradora que, há três anos conseguiu colocar um ponto final no sofrimento, sair da própria casa e recomeçar sua história do zero. Mesmo durante a pandemia, a Patrulha Guardiã Maria da Penha, realizada pela Guarda Municipal, continua acompanhando e dando suporte às mulheres que foram vítimas de violência doméstica. “Estamos diariamente em contato com as mulheres. O acompanhamento está sendo feito por telefone e também através de rondas, para que elas tenham a GM sempre por perto. Caso surja algum problema de conteúdo ameaçador, orientamos as vítimas a entrarem em contato com a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) para aí sim fazermos as orientações”, explica a GM Andreia Melo, que coordena a operação. O PESO Para o sexo feminino, o peso do isolamento vai além dos quadros de violência, chegando a um patamar de cobrança imposta pela própria sociedade. "A epidemia mostra que precisamos cuidar um dos outros e, tradicionalmente, o cuidado é dado como responsabilidade das mulheres. Com essa situação crítica que estamos vivendo, muitas passaram a ter jornada dupla e até mesmo tripla no lar: são elas que tem que sensibilizar a família para a importância do cuidado, lidar com a resistência dos familiares, fazer a gestão da unidade e ainda exercer seu papel profissional", reitera Margareth Arilha. Nesses momentos, a compreensão e o apoio da família fazem toda a diferença. A analista de qualidade, Kelly Cristina Donato, de 31 anos, mora com o filho e o marido e está em isolamento desde o dia 18 de março. Ela alega que o período tem sido enfrentado com leveza. "Aqui em casa meu esposo me ajuda muito, então isso alivia um pouco. Não sinto essa sobrecarga em cima de mim. Se não há essa divisão de tarefas, o estresse se torna inevitável e a fase de isolamento se transforma em um pesadelo ainda maior", pontua exaltando o bom convívio em família.

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