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Governo brasileiro participa de reunião com negacionistas do clima

FOLHAPRESS | 31/07/2019 | 14:55

Pela primeira vez, o governo brasileiro enviou representantes diplomáticos a uma reunião de negacionistas do clima nos Estados Unidos. Em um telegrama ostensivo, assinado pelo encarregado de negócios da embaixada do Brasil em Washington, Nestor Forster, um diplomata relata a participação em reunião na 13ª Conferência Internacional sobre Mudança do Clima, promovida pelo The Heartland Institute em 25 de julho. O instituto defende políticas libertárias e reúne os maiores defensores da tese de que o Estado não deve agir para mitigar os efeitos do aquecimento global.

Segundo o telegrama, obtido pela Folha de S.Paulo, participaram da Conferência alguns dos maiores negacionistas do clima: “o cientista e ex-assessor da ex-primeira-ministra Margaret Thatcher, Lord Cristopher Monckton; o cientista hidrólogo Jay Lehr; e o cientista e ex-assessor para Assuntos Climáticos da Casa Branca, Myron Ebell”.

Procurado, o Itamaraty disse que “é da natureza do trabalho diplomático informar, representar e negociar. Para dar cumprimento ao seu dever de informar, diplomatas acompanham constantemente, em seus postos no exterior, discussões mantidas na academia, em think tanks, órgãos de imprensa e com formadores de opinião”.

O evento teve um depoimento em vídeo do cientista climatologista Timothy Ball,autor do livro “Human Caused Global Warming – The Biggest Deception in History (Aquecimento global causado pelo homem – a maior fraude da história), “muito influente sobre o governo norte-americano em matéria de clima”.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, já demonstrou ceticismo em relação ao aquecimento global. Segundo ele, há equívocos na medição de temperaturas e é “necessária uma discussão aberta e não ideológica desse tema”. “Não há um termostato que meça a temperatura global. Existem vários termostatos locais”, disse Araújo em audiência na Câmara.

“Nos Estados Unidos, foi feito um estudo sobre estações meteorológicas que diz que muitas estações que, nos anos 30 e 40, ficavam no meio do mato hoje ficam no asfalto. É óbvio que aquela estação vai registrar um aumento extraordinário da temperatura.”

A França sinalizou que o sinal verde do país ao acordo União Europeia-Mercosul depende de ações concretas e resultados apresentados pelo governo brasileiro, e não apenas de compromissos verbais -sobretudo no que se refere à preservação ambiental.

À Folha de S.Paulo o ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, afirmou que um dos quesitos a serem considerados é a implantação concreta pelo Brasil das provisões do Acordo de Paris sobre o Clima, que lista iniciativas para mitigar o aquecimento do planeta.

Na segunda-feira, o presidente Jair Bolsonaro cancelou de última hora uma agenda que manteria com Le Drian.
Ao deixar o Palácio do Alvorada de manhã, Bolsonaro disse que receberia o francês e que trataria da questão ambiental, mas que não aceitaria imposições de estrangeiros.

“Hoje eu vou receber o premiê francês [sic], se não me engano, para tratar de assuntos como meio ambiente, e ele não vai querer falar grosso comigo, ele vai ter que entender que mudou o governo do Brasil. Aquela subserviência que tínhamos no passado de outros chefes de Estado para com o primeiro mundo não existe mais. Se fosse outro governo qualquer, quando estava em Osaka, no G20, quando viesse para cá, demarcaria mais 10, 15, 20 reservas indígenas”, afirmou.

Na reunião do instituto, segundo o telegrama, predominaram a crítica aos resultados dos trabalhos científicos do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima da ONU (IPCC), usados nas negociações do Acordo de Paris, a defesa da exploração de fontes de energia não renováveis, como combustíveis fósseis, e o rechaço à proposta de Green New Deal do partido Democrata americano.

Lord Monckton, segundo o telegrama, “frisou, com base nos cálculos demonstrados, que não há evidência científica de que o dióxido de carbono, considerado o principal gás de efeito estufa, seja o agente gerador do aumento de temperatura ao longo do século 20”. Ainda segundo o telegrama, Monckton ressaltou que “o dióxido de carbono produzido pelo ser humano tem impacto irrelevante sobre a temperatura da Terra”.

O mesmo cientista disse, segundo o diplomata brasileiro participante no encontro, que não há consenso na comunidade científica sobre o impacto da ação do homem sobre o aquecimento global, afirmando que as mudanças do clima são provocadas por fatores naturais, sobretudo pela mudança cíclica do regime de atividade solar.

“Os demais cientistas, praticamente todos, teceram reparos às conclusões científicas alcançadas no contexto do IPCC, nos últimos 25 anos. Jay Lehr, com maior ênfase, expôs que as demonstrações empíricas do IPCC não sustentam o nexo causal entre aumento verificado dos picos de temperatura, ao longo do tempo e a interferência humana no meio ambiente.”

Lehr, segundo o relato, concluiu com um apelo à comunidade científica: “Peço para que todos nós paremos de discutir os números deles [IPCC]. O único número que importa é zero: esse é, de fato, o impacto do dióxido de carbono sobre o termostato e o aumento do nível do mar na Terra”.

Myron Ebell, de acordo com o relato, disse que a aplicação das medidas de redução do uso de combustíveis fósseis e de emissão de gases de efeito estufa, conforme estipuladas no Acordo de Paris, no âmbito do UNFCCC, “devastaria as economias norte-americana e mundial e causaria um desastre econômico e social”. Segundo o telegrama, a maior parte dos palestrantes afirmou que os aspectos geopolíticos e ideológicos norteiam os debates sobre o clima.

“Eles estão colocando em risco nosso modo de vida. O debate não é sobre mudança do clima nem sobre dióxido de carbono. Não é sobre clima nem ciência. É sobre socialismo contra capitalismo”, disse Lehr, de acordo com o relato.

Ao final do evento, segundo o telegrama, o organizador da conferência, James Taylor, comentou ao diplomata da embaixada que a entidade encaminhará ao presidente Donald Trump carta com pedido para que o mandatário norte-americano continue a se contrapor ao que ele considera “falsas crises do clima defendidas pela esquerda política”. “O diretor do Heartland Institute também indicou disposição de cooperar com entidades não governamentais no Brasil relacionadas com os temas examinados durante a conferência.”


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