Opinião

Efeito indulgência


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

É assim que tem sido chamado o fenômeno da compensação dos que permaneceram trancafiados durante cem dias, quando são liberados para ganhar as ruas. Isso explica as perigosas aglomerações, o contato físico sem preocupação com a ordem de manter a distância, a dispensa do uso das máscaras.
Pessoas com discernimento são menos propensas a acreditar que tudo já passou. Na verdade, a contaminação continua a fazer estragos e a estabilização do número de óbitos superior a mil por dia não pode ser comemorada.

Em países civilizados, a tendência é continuar a mania das lives. Haja paciência para participar de todos os encontros, entrevistas, palestras, aulas, mensagens, recados, é uma intensa utilização comunicacional pelas redes sociais.

Outra constatação é a de que vai permanecer o delivery, que em NY tem o apelido de "delai" e que aqui pôs em realce a categoria dos motociclistas entregadores. Mas a distância entre as pessoas será mantida, porque o pânico vai demorar para passar. Assim como a tentativa de se alimentar de maneira mais saudável e de fazer exercícios físicos em casa.

Quem pode foge do transporte público. Por mais que se anuncie higienização, não se sabe onde andou e os lugares frequentados pelo seu vizinho de banco no ônibus, trem ou metrô. Continuará a veiculação de notícias falsas, porque a mentira e a boataria fazem parte do DNA do ser humano. Mas uma coisa boa é preferir o comércio local, para que ele não seja engolido pela crise, assim como deixar de usar papel moeda e cheque. Até mesmo o cartão de crédito/débito está com os dias contados. As transações serão feitas pelo celular. Sem perigo de contágio.

O mundo será outro, porque a tecnologia mostrou-se útil e é instrumento de que ninguém abrirá mão, pois serviu para preservar o distanciamento social, sem perda de tudo aquilo que a vida contemporânea oferece de conforto. Natural uma espécie de contido abuso, no momento em que se retoma o convívio. Mas, lembremo-nos dos gregos: "nada em excesso".

O efeito "indulgência" deve ser objeto de serena reflexão por parte dos que sobreviveram à peste. Quantas as famílias que nem puderam chorar seus mortos? Estas, com certeza, conseguiram a velha indulgência plenária para a outra esfera, pois o sofrimento não pode ter sido em vão.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2019-2020.


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