Opinião

Memórias resistentes da Serra do Japi


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ANTONIO FERNANDES PANIZZA PRIMEIRO PLANO DIRETOR DE JUNDIAI
Crédito: divulgação

Esta ocorrência ficou abandonada e parecia ser impossível reconstitui-la, porém com persistência foi possível relembrá-la. Sete jovens entre 14 e 17 anos resolveram fazer uma aventura na Serra do Japi. Era o ano de 1950 e a imagem dela era quase a mesma da de hoje, exceto as estradas de acesso que quase inexistiam. A dúvida inicial foi entre acampar ou ficar num precário rancho e a segunda dúvida foi de como conseguir a concordância da família. Esta foi resolvida com a promessa de cuidados, e, a primeira, apesar de desconhecido foi pelo uso do rancho. Naquele tempo não havia impedimento para caçar, mas embora esta não fosse a intenção, algumas espingardas foram levadas, predominando as de chumbinho. A vontade maior era embrenhar na mata e descortinar a cidade com vistas do alto. O sustento seria com lanches feitos e suficientes aos cinco dias pretendidos.

Na data marcada e logo pela manhã nos encontramos na Rua Nova, hoje Senador Fonseca, e a longa caminhada foi iniciada pela Estrada de Santa Clara. A partir dela foram usadas trilhas com marcas de roda de caminhão, porém percebendo que por ali seria muito longa, bem orientado o grupo optou por trilhas estreitas e íngremes que reduziu bem o caminho. Pouco usada obrigava cortes de arbustos e galhos para permitir a passagem até o alto, aonde chegamos ao final da tarde. Uma surpresa foi que a precária trilha de caminhão também chegava à mesma clareira do rancho. Este feito com troncos e taboas, estava mal conservado e deixava transparecer ter sido usado por lenhadores. Para dormir havia estrados fixos de madeira, guardando uma distância até o chão.

Os dias que se seguiram foram para a exploração do topo da serra, quando se notou que as clareiras com poucas árvores e próximas entre si era uma grande superfície desbastada, que não chegava à borda para não ser vista. Portanto, tratava-se de um lenheiro clandestino, que se confirmava pelos poucos animais. Notáveis foram as lagoas nas junções das montanhas, cujas rãs enriqueceram nosso passadio. Belezas eram a cor e o canto dos pássaros que passavam em direção às matas fechadas.

As semanas seguintes à volta foram dedicadas a desvendar o constatado, e, para nova surpresa, o corte das árvores naquele grande lenheiro era explorado por diversas empresas, mas as maiores consumidoras da madeira eram as quatro ferrovias daqui: São Paulo Railway hoje Santos a Jundiaí, Cia. Paulista, Sorocabana e Bragantina. O longo período das locomotivas a vapor estava no fim e a maioria já era a diesel ou elétrica. Por isso o lenheiro tinha pouco uso.

Passados quatorze anos, em consulta ao mosaico aerofotográfico do município recém-obtido pela Prefeitura, mais abrangente que o mapa aerofotogramétrico, foi possível constatar que a grande área desbastada na Serra do Japi, pela feliz ação da própria natureza, estava praticamente recomposta. É igualmente uma felicidade quando o resíduo retido na memória, através de um tardio e teimoso garimpo, cede sua resistência para a nossa alegria.

Antonio F. Panizza é arquiteto e urbanista


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