Opinião

Reflexos da maré: um mundo suicida?


Da redação
Margareth Arilha
Crédito: Da redação

No momento de publicação da coluna de hoje, estávamos muito cerca de atingir, como humanidade, um milhão de mortes pelo coronavírus. Se pensamos que a lotação do estádio do Pacaembu é de um pouco mais de quarenta mil pessoas, com os devidos arredondamentos matemáticos, podemos dizer que hoje, teríamos no mundo, cerca de duzentos e cinquenta estádios do Pacaembu carregados de mortos.

Aos poucos, o tempo passa, as mortes seguem acontecendo, mas tudo se passa como se não passasse nada mais. Mortes contam, uma a uma. Seja como for. Não podemos nos anestesiar. Os mexicanos têm como uma de suas marcas culturais mais surpreendentes e inusitadas o saber lidar com a morte. Dizem em suas obras culturais que não é possível viver se não se aprender a lidar com ela. Isso não significa negá-la, fazer de conta que os riscos de sua presença sejam inexistentes, mas especialmente contar com ela, lembrar dela. Será que não estamos vendo os duzentos e cinquenta estádios lotados com pessoas mortas?

Essa é a vida estranha e dividida que estamos vivendo! Por um lado sabemos e vemos outro faz-de-conta, um pensar que tudo segue, como se tudo seguisse da mesma forma. Quais serão os reflexos dessa nossa nova maré? As marés do último feriado mostraram no Brasil pessoas sedentas pela experiência de liberdade, fictícia, é certo, mas presente. Um mar que não tem tamanho, uma alegria sem tamanho, pancadões e aglomerações e a necessidade de voltar para casa e voltar a viver as regras do isolamento. Uma espécie de experiência de prisão domiciliar. Um pouco curioso, não acham? Especialmente porque não sabemos ao certo qual será o tamanho das consequências do possível processo de contaminação vivido. Assim como, provavelmente, a volta as escolas, se acontecer, será um passo de liberdade fictícia, com volta atrás.

É bem certo que o ditado diz maré baixa não faz bom marinheiro, mas olha que as ondas deste mar tsunâmico estão sendo gigantes e mais e mais atiçadas. Como se estivéssemos querendo atiçar o leão com vara curta. Vamos lá, eu posso mais, eu posso gozar mais. Não seria melhor maior prudência? Parece que o mundo está querendo pagar para ver . Um impulso qualquer, uma pulsão qualquer, que nos leva a provocar o risco de morte nosso e dos demais. Um mundo suicida?

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo) da Unicamp


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