Opinião

Emendas de Deus

Às vezes, necessitamos dos tombos para compreender que Deus não condena


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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE (NOVA)
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Convidou-me para a inauguração do restaurante comercial que abriu, no final de setembro, com uma amiga, na cidade onde atualmente reside. Emocionei-me. Cozinheira de primeira. Refeições bem caseiras e entrega. A filha mais velha havia me contado com os olhos que transbordavam alegria. Gente de alma generosa. Feliz com a vitória da mãe. Pena não poder estar.

Em meio a fotos das refeições preparadas, de dar água na boca, comentou que, no passado, eu enxerguei nela o que ela desacreditava e, nas primeiras refeições que preparara, se recordava de mim. Chegou a pensar, me confessou, que só a morte poderia livrá-la dela mesma. Em momento algum duvidei que, em um determinado tempo, pela mãe, pelos filhos, por ela e pela fé em Deus, fincaria o pé na estrada de volta e renasceria. Seus olhos plenos refletiam um coração que, embora estrangulado de dor, batia forte no anseio pelo reinício que não surgia. O não saber lidar com os desencantos a levaram para as margens, afogada em delírios provocados por substâncias nocivas. Foi como a conheci: em meio a tropeços, com as entranhas em gritos... Sua família assim como ela se tornaram muito próximos.

Recordei-me de uma colocação do frei Patrício Sciadini, OCD, a respeito dos desvios: aconteceram, acontecem e não há como apagar, contudo as cicatrizes são o sinal do quanto Deus é misericordioso. Às vezes, necessitamos dos tombos para compreender que Deus não condena, Ele estende as mãos e levanta.

Recomeçou do nada. Às terças-feiras, o restaurante não abre, pois não pode perder as faxinas que também a ajudaram a se manter. Como, no momento, não tenho como ir até lá, enviou-me fotos. A claridade do céu iluminava o ambiente com suas pequenas mesas de madeira. Tudo muito bem cuidado. Visibilidade para a cozinha. A sua amiga com sorriso de acolhimento.

Na rua há o nome de Santa Teresa de Calcutá que uma vez afirmou: "Para manter uma lamparina acesa, precisamos continuar colocando óleo nela". Em momento algum ela deixou de pensar nos que amava e foi esse óleo de lucidez da ternura que manteve a sua lamparina acesa.

Deus juntou as emendas de seus desencontros e, para cicatrizar, as cauterizou com a chama de Seu Amor. Nos remendos, colocou vida nova.

Bendito seja Deus que veio ao encontro dela - Ele vem sempre - e que coisa boa ela se permitir restaurar pelo Senhor.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista


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