Opinião

A grande falta sentida

Não há como não sentir a ausência do professor na educação de nossos filhos


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COLUNISTAS GUARACI ALVARENGA
Crédito: divulgação

Os tempos modernos não lhes reservam o lugar da primeira fila, que sempre mereceram. Ao se comemorar o seu dia, sentimos a sua grande falta, talvez a nossa maior perda na pandemia. Nossas crianças longe de seus maiores mestres, seus inestimáveis professores. A nobre missão: não só instruir, mas educar.

A jornada diária. Primeiro o caminhar a pé, depois a espera do ônibus, mil riscos a correr. A escolha das aulas. Os horários e escolas alternativas. Desde jovem já sentiu este desassossego. Viu, todavia, claro o caminho. Mais que promessa, era a certeza de seu destino. Tudo nela é natural. Sabe ouvir e sabe falar. Às vezes tropeça na ingratidão, muitas vezes cai no esquecimento, mas sempre se levanta como a criança que aprende a andar. O impulso da vida a leva, seguir em frente.

O café corrido. O salário desigual já mexe com seu bolso e com o seu pobre desjejum. A chuva. O ônibus atrasado. O horário a cumprir. A matéria a ser lecionada. Encontra energia num segredo só seu e bem guardado. Vai com ela, aonde ela vai. Reúne as forças necessárias, na vontade e alegria de ensinar.

A modernização da tecnologia didática, bem como a adequação dos currículos à vida prática dos alunos. Mais uma vez é chamada a intervir. Na classe, de relance, vê a luta diária a enfrentar. A invasão de portadores de celulares.

Está tão difícil cuidar dos nossos filhos, imaginem cuidar dos filhos dos outros. Tantos jovens irrequietos e "excitados", nos dias de hoje. Uns taludos, outros franzinos, maioria menos afortunada, entretanto, a todos quer bem. Seja tatuado, usando boné ou coçando a genitália. Vê ali, com olhos comovidos, o Brasil de amanhã. Aí, acredita no que diz. Nem precisa a diretora repetir e nem a coordenadora recomendar. As palavras exatas. Basta uma palavra e se acende. Não come e nem mastiga uma única sílaba. Traz nos olhos, no jeito, uma flama que crepita.

A sala de aula. O ar abafado. Nas instituições públicas, o ar-condicionado é privilégio de poucos, e só em gabinetes fechados. Não desiste. Se o aluno não estuda é culpa da professora. Num ímpeto de sinceridade, se empenha. Prefere pecar pela ação, jamais pela omissão. À noite há os afazeres do lar. O cuidado com os filhos. Exausta liga a televisão.

O noticiário. Impossível não ver ou não ouvir. Toda aquela desesperança. Assaltos, quadrilhas, drogas, balas perdidas, mortes no trânsito, corrupção, propina, desonestidade, políticos corruptos, milhões de dólares amontoados no exterior, ganância desmedida. O Brasil das notas baixas. A escola pública desacreditada. Este grande país não merece isto. Desliga a televisão. Recolhe-se ao quarto. Começa a chorar.

Nestes duros tempos, não há como não sentir a ausência que o professor atinge na educação de nossos filhos. A homenagem que se presta deve sempre pelo reconhecimento de seu valor em nossas. A indiferença, esta sim, é a pior das ingratidões.

Guaraci Alvarenga é advogado


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