Opinião

Saudades da nossa essência

O Teatro é o palco da resistência. É o palco da transformação do homem


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Wagner Nacarato
Crédito: divulgação

No Carnaval de 1985, conheci um grupo de artistas formado por atores, cenógrafos, figuristas, sob o comando do diretor teatral Antônio Cadengue, no Recife. Foi Cadengue que me apresentou, num jantar, Sábado Magaldi. Foi Cadengue que disse a mim: "Os jovens, aqui no Recife, sonham em trabalhar com Antunes Filho. Você vem de uma cidade, conhecida como a cidade da uva. Uva é Baco! Uva é Dioniso! Faça as honras ao local de seu nascimento e vá fazer um teste com o Antunes!"Fiz o teste e passei. Foram dois anos de aprendizado no CPT - Centro de Pesquisa Teatral do Sesc. Voltei para Jundiaí, com toda aquela formação humana e ética que Antunes plantava em seus atores, além de abrir a minha mente para o papel social do ator.

Do CPT fui para a Escola Divina Providência - em Jundiaí - iniciar um trabalho inédito com os alunos. Criamos o Teatro da Escola, curso extracurricular, que há 33 anos, atuo como professor e diretor teatral. Foi ali, na escola, que seguindo os passos da professora Ivanira Dadalt, pude levar os alunos de teatro a assistir à peça "Sonho de uma noite de verão", com direção de Cacá Rosset. Detalhe, as fadas de Shakespeare, estavam todas nuas. A peça foi sucesso em Nova Iorque, sendo apresentada no Central Park. Após este momento, vários outros se seguiram. Sempre, levando os alunos, para assistirem o de "melhor" em cartaz.

Não sou um profundo conhecedor das ideias da Teoria do Eterno Retorno, do filósofo Friedrich Nietzsche, mas me parece que há ali uma verdade simbólica. Parece que estamos fadados a repetir experiências, à moda de Sísifo. A vida é um círculo.

Em pleno 2020, a pandemia da covid-19 paralisou as nossas vidas. Fomos obrigados a nos recolher, a respeitar o distanciamento social. Nunca imaginei que isto fosse possível, nos dias de hoje. A última pandemia foi há 102 anos!

E em nosso isolamento, o retrocesso social parece assombrar a humanidade, ocupando, simbolicamente, as ruas das redes sociais.A misoginia, a xenofobia, o racismo, o antissemitismo, a homofobia estão todos juntos e misturados. A eles, vem dar as mãos o ódio aos artistas! Já dizia Rodin que a humanidade é bestial, pois não sabe o que fazer com os artistas.

A humanidade sempre foi polarizada. Esquerda e direita. Progressistas e conservadores. A existência de um pressupõe-se o seu oposto. Somos assim. Machado de Assis em seu conto "A Igreja do Diabo" explora com sabedoria este jogo.

Situando a experiência grega, quando as mulheres, os escravos e os estrangeiros bebiam o vinho para experimentar Dioniso e sua liberdade, impulsionando a humanidade ao encontro do Teatro, constatamos a força da resistência para a criação de novos paradigmas, para a criação de um mundo pautado nos futuros ideais da Revolução Francesa, "a liberdade, a igualdade e a fraternidade", que em algum lugar da História ficaram perdidos no tempo.O Teatro é o palco da resistência. É o palco da transformação do homem. Dizia Antunes Filho que o homem tem saudades de sua essência, por isso vai ao teatro.

WAGNER NACARATO é coordenador de cultura, professor e diretor de teatro


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