Opinião

Mulheres chilenas e a nova Constituição

Homens e mulheres eleitos seguiram as regras do 50/50 e cotas para os índios


Da redação
Margareth Arilha
Crédito: Da redação

Pela primeira vez, no mundo, as mulheres poderão participar e redigir uma Constituição estando em igualdade numérica com os homens e debaterão em igualdade de condições os rumos de seu país e de suas demandas específicas. O Chile acaba de dar uma demonstração de que a vibração política pode, de alguma maneira, reacender espaços democráticos e esperanças de transformação na sociedade contemporânea, ainda que em circunstâncias difíceis, políticas, econômicas e sanitárias tentem indicar o contrário. O Chile reacenderá uma certa alegria naqueles que assistiram aos anos de chumbo verde chileno. O Chile constrói, deste lado do mundo, a realização de um resgate simbólico daquilo que foi, a seu tempo, um esforço de transcendência e democracia , rumo à igualdade. Pessoalmente tive a oportunidade de conhecer, com muito pesar, o toque de recolher, e os passeios noturnos daqueles que se diziam mantenedores da ordem, os carabineiros. No meio do caminho da história chilena havia um pedra, uma pedra havia no meio do caminho e, como Drummond nos ensinou, não era possível seguir sem observá-la. Pinochet, o que terminou com o sonho de estruturação de direitos sociais, e seus ciclos posteriores de mudanças econômicas. Passou a ser um símbolo nefasto do que o liberalismo, sequencialmente, viria tentar produzir nas hostes econômicas. Esgarçado o tecido social, o ano de 2019 foi marcante na história política chilena. Seguida a protestos de vulto nas ruas, as consequências foram importantes: a decisão de se construir um plebiscito que mostrasse se o país desejava ou não a chegada de uma nova Constituição que abolisse as marcas dos períodos cinzentos. O resultado se deu a conhecer ontem. Vitoria para a aspiração a igualdade. Acordadas as formas de se construir a nova assembleia nacional constituinte, os chilenos e chilenas também já tinham definidos os tempos, mas sobretudo algo totalmente inusitado no continente e no mundo: homens e mulheres eleitos seguindo as regras do 50/50 e com cotas para os povos indígenas locais. Com impacto retumbante ao redor do mundo, os movimentos feministas saúdam e se posicionam como ativas participantes desse novo laboratório da cena política mundial. Com experiências das mais diversas em vários terrenos, o Chile marcou passo em relação aos direitos das mulheres. Retardou o direito ao aborto, embora tenha aprovado a Lei de Identidade de Gênero. Muito para debater e seguir e aprender.

MARGARETH ARILHA
é psicanalista e pesquisadora do
Nepo (Núcleo de Estudos em
População Elza Berquo) da Unicamp.


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