Opinião

Crença miraculosa

Quem é munido de fé, sequer precisa de remédio


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Mais vale a fé do que o unguento. Será? A História registra um eloquente percurso da fórmula humana de cuidar das enfermidades. Sabe-se que, mal se nasce, inicia-se o trajeto rumo à morte. É natural e é irreversível. Só que esse passeio pode durar algumas décadas. O material de que são feitos os homens é frágil e vulnerável. De vez em sempre falha. E, quando isso acontece, há necessidade de hospitalização.

Os hospitais, que já foram chamados "hospícios", também receberam um apelido: "Casas da Morte". Os pacientes que neles entravam tinham de dispor de dinheiro para custear seu sepultamento. Não sairiam vivos dessa internação. Nada a ver com o que acontece num hospital da Zona Leste da capital, em período de recrudescimento da pandemia.

Antigamente, considerava-se o pus como parte natural do processo curativo. Os jalecos dos médicos eram impermeabilizados pelo sangue seco. Não se lavava as mãos nem antes nem depois das cirurgias. Tudo cheirava a carne podre. Só em 1865 se percebeu que os micróbios causavam infecção e aí começou a utilização de assepsia com ácido carbólico.

E os remédios?

Chegou-se a ministrar mercúrio e arsênico aos enfermos. No século 17, era comum receitar excrementos, urina, sangue, suor de animais e pó de múmia. No Brasil, acreditou-se que a naftalina curava malária. Método comum era a sangria. Extraía-se tanto sangue do doente que vários baldes eram repletos. Tudo em busca de uma cura.

Com a covid-19, muitas pessoas em vários países começaram a beber álcool, querosene, óleo diesel. Sem falar nas mezinhas que recomendaram limão, vinagre, vodka e outras bebidas.

Diante de um vírus que se espalhou pelo mundo e que não se sabe ao certo como atinge pessoas de todas as idades, malgrado a preferência pelos idosos, tudo vale. Como "de médico e de louco, todo mundo tem um pouco", há quem continue a acreditar nos medicamentos que a ciência diz serem inócuos. Não se exclua o fator crença, portanto. Quem é munido de fé, sequer precisa de remédio. A verdade é que o ser humano ainda não recorre a um percentual mínimo de sua potencialidade cerebral. Não erra quem afirma que "a fé remove montanhas". Por que não removeria um vírus tão insignificante que sequer é visto a olho nu?

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2019-2020

 


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