Opinião

ESPAÇO DO CIDADÃO


AÍ, EU APLIQUEI O ESTINGÃO

Os velhos ferroviários vieram em quase toda a maioria do fenômeno do êxodo rural. Eram trabalhadores que vieram para as cidades ou seus descendentes em busca de uma vida melhor. Que trabalhadores da cidade aguentariam jornadas de 16 ou 18 horas, sem direito a jornadas extras? E muito menos aguentariam trabalhar numa cabine onde existia uma grande fornalha que tinha que ser alimentada a todo instante com lenha ou carvão. Eram as famosas Marias-Fumaças, os velhos trens que exercem tanta fascinação nos dias de hoje.

Os velhos foguistas tinham um sonho. Progredir nas companhias ferrovias e serem algum dia maquinistas, onde ganhavam mais e várias promoções de acordo com mérito pessoal e profissional. Quando maquinistas, eram submetidos a treinamento severo. O auge da carreira era atingir o nível de maquinistas de passageiros. Podiam almejar uma aposentadoria mais vantajosa.

Benedito Braga Tavares de Camargo foi considerado um profissional gabaritado. Começou sua vida de ferroviário na antiga Companhia Douradense, que fazia diversos percursos na região de Dourado, Ribeirão Bonito, Trabiju, Boa Esperança e mais 18 municípios da região de São Carlos. Na década de 1940, foi incorporada pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Pois foi dele que ouvi a história do Estingão. Contou-me que sua maior preocupação quando vinha de Araraquara para Jundiaí era descer a Serra de Itirapina. Se chovesse,o trem ameaçava deslizar nos trilhos. Quando subia era também problema. Tinha que lançar nos trilhos areia grossa e areia fina. Se não resolvesse, aplicava o Estingão. Certo dia o trem perdeu força e começou a voltar para trás, "então eu apliquei o Estingão e ele parou rapidamente."

Fiquei com o nome guardado durante muitos anos. Contei a história a um antigo funcionário da companhia. Ele me disse que era mesmo com esse nome que os ferroviários denominavam o famoso freio da marca Westinghouse. Como tinham dificuldade para falar o nome em inglês, simplificaram para Estingão e assim passou a ser conhecido.

Velhos tempos, velhas histórias.

Geraldo Gattolini

 


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