Opinião

Medo, a eterna companhia

Isto é apenas passagem transitória, a caminho da verdadeira vida


divulgação
HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

O medo é companhia permanente do ser humano. Em tempos de pandemia, ele recrudesce e se intensifica. Não é novidade para uma civilização cristã. Quem é afeiçoado às Sagradas Escrituras não desconhece a extensa sinonímia aplicável ao medo: temor, terror, angústia, ânsia, esgotamento, preocupação, inquietude, horror, pânico. Paradoxal que o medo surja sempre mais forte quando Deus está presente.

Inúmeros exemplos na Bíblia, do temor que a proximidade de Deus acarreta aos mortais. Logo no Gênesis, ao despertar Jacó do seu sono, temendo, diz: "quão temível é este lugar! É a casa de Deus, a porta dos céus". (Gênesis, 28-16/17). Mesmo os mais íntimos do Cristo sentiram medo. Um deles foi Pedro, considerado o primeiro papa. Conseguiu caminhar sobre as águas, ao encontro de Jesus. Mas teve medo e começou a afundar. (Mateus, 14-22/36). Se assim acontece com os escolhidos, o que não dizer em relação a pobres mortais?

Todos os humanos têm medo. Agora, mais do que em outros tempos, já que tomamos conhecimento de nossa fragilidade e de nossa impotência diante de um vírus invisível, mas que mata impiedosamente.

O remédio contra o medo é fortificar a alma. Com coragem, que tem a mesma origem etimológica de coração. Coragem significa reação do coração. Não é o contrário do medo, porque o pressupõe. Mas é a superação do medo, porque uma alma forte vence o medo.

O contato com o perigo, nestes tempos tão acentuado, não faz sumir o medo. Mas faz compreendê-lo. E mediante a aceitação do medo, sentimento natural a toda criatura frágil e finita, como somos todos nós, é possível armar a alma de coragem, que é a ação disciplinada e inteligente que não ignora os perigos da realidade, mas que exatamente por isso é capaz de enfrentá-los.

Melhor seria que, assim como ocorria nos primórdios do Cristianismo e mesmo antes, na tradição judaica, o Criador se fizesse materialmente presente e nos ratificasse a certeza de que isto é apenas peregrinação, passagem transitória, pois a caminho da verdadeira vida.

Cumpre aos humanos do século XXI encontrar fórmulas de administração do medo e das outras angústias que tornam a humanidade tão vulnerável e tão insegura como nestes nossos plúmbeos dias. 2020: mais um annus horribilis!

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2019-2020

 


Notícias relevantes: