Opinião

Para que não existam mais amores servis

"E de nada valeria acontecer de eu ser gente. E gente é outra alegria"


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Wagner Nacarato
Crédito: divulgação

São os artistas as antenas da raça humana. São eles que rompem os limites e expõem a dura realidade humana, muitas vezes escondida por de trás das máscaras sociais.O que seríamos de nós, isolados em nossos cantos, nesta pandemia, sem os artistas? Quantas possibilidades nos foram doadas pela Arte para que não enlouqueçamos?

Caetano Veloso lançou o documentário autobiográfico, "Narciso em férias", do período em que ficou preso e, posteriormente, exilado, na Ditadura, em 1968. O cantor se emociona ao se lembrar de quando, na prisão, viu as "tais fotografias" do planeta Terra, publicadas na Revista Manchete. Após dez anos, escreveu os versos da canção "Terra": "Eu sou um leão de fogo. Sem ti me consumiria a mim mesmo eternamente. E de nada valeria acontecer de eu ser gente. E gente é outra alegria. Diferente das estrelas." Caetano, ainda se emociona, ao se lembrar de seu pai. Foi ele quem ressuscitou no filho, após a prisão, a sua missão como artista e como ser humano. Somos seres de memória.

Ninguém pode nos calar e nos impedir de sentir e de viver conforme nossos desejos pessoais. Somos seres de memória. Sem ela, o mundo jamais seria o mesmo. "Gente é para brilhar", disse o poeta russo Vladimir Maiakovski. E Caetano Veloso, a partir de um de seus poemas, escreveu a letra da canção "Amor". "Talvez, quem sabe um dia, por uma alameda do zoológico ela também chegará. Ela que também amava os animais entrará sorridente, assim como está, na foto sobre a mesa. Ela é tão bonita. Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão.... Ressuscita-me para que a partir de hoje, a partir de hoje, a família se transforme. E o pai seja pelo menos o Universo. E a mãe seja no mínimo a Terra. A Terra. A Terra."

Neste retrocesso mundial, em que o conservadorismo ruge, desesperadamente, inescrupulosamente, disparando fake news, é nosso dever informar aos jovens nossa memória como povo. Informar das nossas conquistas pela liberdade de expressão. Como admitir que um professor em Paris seja brutalmente morto, só porque ensinou aos alunos a tal liberdade de expressão?

Durante a Ditadura, a imprensa foi impedida de informar sobre o exílio forçado de Caetano Veloso e Gilberto Gil. A imprensa disse que os artistas estavam em férias em Londres.

O papel dos artistas e dos filósofos é de nos apontar a quebra do muro. Aliás, o muro é tão simbólico. Já foi destruído na Alemanha e reconstruído na fronteira entre os EUA e o México. Até em Israel, a terra santa, o muro está de pé. O muro é tão a cara do ser humano. O muro nos divide em brancos e pretos. Em homens e mulheres. Em quaisquer possíveis dualidades.

Quem sabe, tenha chegado a hora de aprender com as mulheres gregas, que subiram ao monte para brindar e gritar pela presença de Dioniso. Quem sabe, tenha chegado a hora de nos unir para encontrarmos um novo significado para o ritual dionisíaco.

Ouço na boca de muita gente: "como anda chata a vida". Para este desabafo, um verso de Caetano: "Ressuscita-me. Quero acabar de viver o que me cabe. Minha vida. Para que não mais existam amores servis."

WAGNER NACARATO é coordenador de cultura, professor e diretor de teatro


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