Opinião

Aproveitar a onda

A oportunidade de aprender é algo que só depende da curiosidade


A pandemia é uma tragédia, uma desgraça, expõe nossas fragilidades, mas nem tudo é nefasto. Ela mostrou que a inevitabilidade da concentração de todos os trabalhadores no mesmo espaço físico é uma falácia. O melhor exemplo é o Judiciário. Não parou e potencializou a produtividade. O trabalho intelectual não precisa da presença colegiada. À distância, a produção é ainda melhor. Há tranquilidade, há condições de elaboração de ideias sem a distração, a conversa, a interrupção e o tempo perdido num convívio entre colegas.

É óbvio que trabalhar em casa precisa de maturidade e estabilidade emocional. A pessoa tem de se organizar e se adaptar para desenvolver, dentro de sua casa, aquilo que está acostumada a fazer em conjunto. Todavia, o cotejo entre ganhos e perdas mostra a vantagem do benefício sobre os custos.

Não há mais necessidade de grandes estruturas. Desmorona a volúpia das grandes construções. Economiza-se em transporte. A mobilidade das cidades se torna infinitamente melhor. Gasta-se menos tempo, menos combustível, menos vestuário. Tudo pode ser investido na confecção de uma tarefa mais qualificada.

A transição para o trabalho remoto contou com resistência. Alguma justificada, outra obscurantista. Desconfiar que o profissional vá passar suas horas para repouso ou qualquer outra atividade desvinculada do trabalho é típico de chefete. De gente pequena e mesquinha.

Em regra, aquele que trabalha com a inteligência se adapta ao novo funcionamento mediante pessoal investimento na sua emoção, autogestão de seu tempo, disciplina e organização das rotinas. Por isso, a preocupação com as conhecidas competências socioemocionais. O preparo técnico é pressuposto. Mas nem todos os tecnicamente preparados tiveram treino para atuar sem a constante partilha de opiniões, sem a troca de ideias, sem as interrupções inevitáveis no ritmo de produção.

As novas gerações já são diferentes. Nascem com chips e são muito mais do que amigas da tecnologia. São parte dela. O mergulho na realidade da Quarta Revolução Industrial é irreversível. Veio para ficar. Ganha-se muito no contínuo aprimoramento do trato com as TICs. As dúvidas podem ser resolvidas em chamadas de vídeo. A oportunidade de aprender é algo que só depende da curiosidade. Praticamente tudo se aprende e se apreende pela internet. É aproveitar a onda e tentar recuperar décadas perdidas, porque o onipotente Estado não percebeu que ficou para trás.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2019-2020.


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