Opinião

Democracia em serviço

Só nos resta um grande apelo aos autênticos democratas para se unirem


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ANTONIO FERNANDES PANIZZA PRIMEIRO PLANO DIRETOR DE JUNDIAI
Crédito: divulgação

Em uma pesquisa sobre expressões mais usadas no Brasil, a Constituição estará bem presente no âmbito geral, e no topo dentre os responsáveis pelos três poderes. Nunca foi tão pronunciada, como também tão vilipendiada. Desvalorizada pelo exagero de sua menção, o brasileiro se acostuma com a quantidade de corrupto do colarinho branco convivendo com o governo, acha normal transformar em herói o bandido da faixa baixa, e despreza por absurdo que é um juiz do Supremo soltar pela porta frontal de penitenciária um grande mafioso condenado e cumprindo pena e cuja fuga foi completa.

Houve tempo quando uma sociedade era vÍtima de assaltantes e malfeitores estes eram tidos como bárbaros por suas maldades às pessoas e em suas cidades. Quando derrotados, o que não era fácil, na fuga se instalava em locais precários, pretendendo voltar. A propósito deste quadro, J. M. Coetezee, Prêmio Nobel de Literatura, em 1980, escreveu 'À espera dos Bárbaros', no qual consta "Num lugarejo de província ocidental de um império sem nome, um magistrado cumpre seus deveres... É um funcionário correto... mas começaram a nos chegar da capital histórias da Inquietação entre os Bárbaros". Os personagens são ótimos e o tema evolui conforme o título. Há alguns anos foi relembrado percebendo-se que os bárbaros não mais são povos apartados e sim parte da sociedade com a qual convive, e dela esconde as falcatruas que cometem. No Brasil pelo que roubam impedem seu desenvolvimento e prejudicam aos mais pobres. Não mais fora do império, dilapidam impunemente o patrimônio nacional e vivem nababescamente. A tolerância com os bárbaros de hoje faz difícil dizer se as atividades das pessoas corretas já não foram ultrapassadas pelas incorretas.

Caso esta seja maior e, como se diz, sendo o Poder Legislativo uma amostra fiel da população que representa, é triste saber que o Projeto de Lei Anticrime visando sua maior eficiência, tenha sofrido mudança para torná-la mais leve. Isto demonstra que os bárbaros já são maioria, portanto a Câmara está fora de mãos democráticas. Outros vestígios são percebidos como mostra editorial de jornal de São Paulo realçando a fala presidencial "Eu respeito à Constituição, mas tudo tem um limite", e quando hostiliza opositor o jornal expressa "isto é, o avesso da democracia". Há outras falas de motivo duvidoso, tais como: "quero interagir com a polícia", "com esse juiz eu tomava Turbaína". Quais as razões do desejo desta convivência com pessoas que devem ser severos guardiões da lei. Sendo a Constituição a maior delas, que esperar destas manifestações exatamente de quem deve aplicá-la e protegê-la. Isto nos permite pensar que já estamos dominados pelos bárbaros.

Tomara eu esteja enganado e ainda não estejamos derrotados, mas que a probabilidade é iminente não há dúvida. Se assim é, só nos resta um grande apelo aos autênticos democratas ainda respondendo pelas instituições brasileiras a se unirem diante de um verdadeiro programa de recuperação nacional visando salvar o governo instituído, e com condições de preservar a plena democracia.

ANTONIO PANIZZA

é arquiteto e urbanista


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