Opinião

Kamala Harris e as eleições municipais

John Lewis estava correto ao afirmar que "a democracia não é um estado, é uma ação"


Da redação
Margareth Arilha
Crédito: Da redação

A vice-presidente americana, Kamala Harris, em seu discurso de confirmação da vitória dos democratas americanos, afirmou uma visão de mundo que nos interessa destacar. Compartilhamos de sua perspectiva e, ao mesmo tempo, consideramos que várias de suas visões podem e devem ser tomadas em conta em nosso processo eleitoral. Em suas palavras iniciais, Kamala ressalta que a democracia é um ato. Isto me pareceu extremamente impactante por sua convergência com o que a psicanálise lacaniana indica. O ato, aquele que ao ser realizado não permite retorno a um ponto anterior de ser do sujeito e das coletividades, é ali tomado como o ato de mobilização democrática constante dos americanos. Uma vez decidia qual seria a chapa de oposição, o país se moveu e caminhou conjuntamente em direção a seu objetivo final. Mostrou que John Lewis estava correto ao afirmar que "a democracia não é um estado, é uma ação". Kamala afirmou que proteger a democracia exige luta, mas há progresso possível. Com os princípios da igualdade e da justiça, os pilares da esperança, unidade, a decência e a verdade foram destacados.

Senadora pela Califórnia, foi a primeira mulher procuradora-geral do Estado, filha de proeminente pesquisadora, mãe indiana e pai jamaicano, de origem afrodescendente. Circulou sempre entre as hostes da elite política e econômica progressista do país, adotando, mais recentemente, uma postura crítica em relação a Trump. No discurso de posse, posicionou-se a favor das feministas e das mulheres negras. Mostrou como as forças dos movimento da sociedade conseguiram, mesmo em tempos de pandemia, mostrar o que desejavam. O resultado eleitoral americano, de fato, inspira a ida as urnas no Brasil. Municípios estarão deflagrando ações eleitorais, que poderiam ser inflexões do poder que nos satura nesse momento. As eleições se darão em 5.568 municípios e serão eleitos 57.127 vereadores/as para as Câmaras Municipais. Uma das formas de superar estruturas de dominação comprometidas com o poder econômico, racista, ou de gênero, seria verificar possíveis candidaturas de mulheres, ou de candidaturas negras ou que compõem com o arsenal de demandas integradoras dos direitos específicos.

Uma escolha eleitoral deveria contribuir com um ato consistente de mudança, que só poderá vir através de candidaturas promissoras e comprometidas com agendas de transformação social.

MARGARETH ARILHA

é psicanalista e pesquisadora do

Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo) da Unicamp


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