Opinião

Os confrontos de Miguel

Os contos de Reale mostram excelente noção da fisionomia urbana


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Miguel Reale Júnior é um polímata. Jurista consagrado, professor respeitado, foi ministro da Justiça, escreve constante e corajosamente, não tem receio de desnudar a realidade da política brasileira. Consegue aliar tudo isso com a literatura de ficção. Será mesmo ficção ou é sua experiência profissional a sugerir retratos bem fiéis do paradoxo humano?

Agora, oferece "Confrontos", livro de contos editado pela GZ Editora e adverte: "A vida é envelopada em uma rica multiplicidade de sentimentos, com busca incessante de felicidade e encontro muitas vezes apenas de decepções que os contos procuram retratar. Mas algo é certo: apesar de tudo, é divertido viver".

Essa diversão está ausente no primeiro conto: o potencial suicida que viu frustrada a intenção de causar sensação com sua morte, já que a covid-19 trivializou essa democrática ocorrência ao multiplicar os óbitos.

A experiência do magistério da professora Luzia também não é divertida, embora mais do que provável. Quem enfrenta classes conhece bem o drama. Assim como a proposta endereçada à doméstica pelo dono do bar onde fazia compras para a patroa. Para muitos, pode ser divertida a situação de um ex-marido que não se contenta com aquela que foi o pivô da separação, mas continua a se relacionar com a ex-mulher. A postura machista de estar sempre aberto a novas aventuras não é novidade mas, ao lado da sedução do perigo, há riscos que podem redundar em circunstâncias que nada têm de divertido. Quem quiser saber mais ou entender o recado, precisa ler o livro.

Os contos de Miguel Reale Júnior são relatos bem providos de veracidade e, talvez, a fantasia seja um ingrediente de que se sirva com modicidade, tal a exuberância da vida real. Mostram excelente noção da fisionomia urbana da megacidade paulista e neles ressalta a erudição de quem teve o privilégio de nascer no lar predestinado de D. Nuce e do jusfilósofo Miguel Reale.

Uma leitura amena, agradável e instigante. Não se pressente, da sequência narrativa, qual será o final de cada conto. O dom de conferir surpresa é um dos talentos do contista. Leiam "Confrontos". Tenho a certeza de que vão gostar. Eu gostei. Admiro a competência do jurista para a elaboração, ao lado de receitas para salvar o Brasil, de remédios atraentes para bons momentos subtraídos à angústia da pandemia. Para isso servem os contos.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2019-2020


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