Opinião

Fascismo à brasileira

O integralismo combatia a democracia liberal e a representação partidária


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

Pelotões uniformizados em marcha, cantando hinos e na defesa de um "Estado forte, integral". Inspirados (e em parte financiados) por regimes totalitários que se alastraram rapidamente pela Europa, como o fascismo de Mussolini e o nazismo de Hitler. Eram os integralistas, surgidos no Brasil sob a liderança do escritor Plínio Salgado, na década de 1930.

O livro do jornalista Pedro Dória, "Fascismo à brasileira", da editora Planeta, ajuda o leitor a compreender esse fenômeno político que aglutinou até 1 milhão de participantes numa população de 30 milhões de pessoas. Ingredientes dessa ideologia seguem firmes no Brasil de hoje e o livro de Dória (concluído em junho deste ano) analisa-os na contemporaneidade. Esparramado pelo Brasil, o integralismo revelou-se força política das mais atuantes. Dos muitos adversários, talvez tenha sido o mais difícil para Getúlio Vargas driblar nos anos de 1930.

Inimigo de comunistas, socialistas e liberais (ainda que muitos desses tenham aderido ao sigma ideológico), o integralismo defendia ideais nacionalistas. Mitificava o caboclo, o "brasileiro ideal", em oposição ao afrancesado ou americanizado (e "efeminado") homem urbano. Já o caboclo, desde cedo encarando dificuldades, tornava-se forte e "genuinamente brasileiro". O integralismo combatia a democracia liberal e a representação partidária. Fortaleceu-se com sua pregação por um "salvador da pátria" que implantasse a "ordem".

Salgado visitou a Itália de Mussolini, foi recebido pelo próprio "Duce" e voltou maravilhado. Uniu-se a outros intelectuais, como o jurista Miguel Reale e o escritor Gustavo Barroso, com os quais formou a trindade do fascismo verde e amarelo.

Apoiaram o golpe do Estado Novo getulista, mas a raposa gaúcha lançou-os à clandestinidade. Tentaram, então, um golpe, a "Intentona integralista", em 1938. Fracassaram e o grupo dispersou-se. Com o fim da Segunda Guerra e a derrota do nazifascismo na Europa, muitos dos integralistas mudaram o tom e mesmo o discurso. Reale e Salgado, ao longo do tempo, negaram a vinculação ao fascismo, admitindo o integralismo como um "movimento católico conservador". Antissemitismo, xenofobia e intolerâncias foram convenientemente "esquecidos".

Pedro Dória escreve de maneira clara e fluente. Seu texto, informativo e saboroso, revela um movimento plantado há 90 anos cujas ramificações alongam-se nos dias de hoje.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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