Opinião

Em frente, atrás de melhores dias

Ouvia-se os versos "a bandeira segue em frente, atrás de melhores dias"


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Wagner Nacarato
Crédito: divulgação

A casa de Seu José estava toda enfeitada com bandeirinhas multicoloridas. As mulheres da vizinhança chegaram bem cedinho para ajudar Dona Maria, a esposa de Seu José, a preparar o almoço. Teriam muitos convidados. Os filhos do casal e amigos da casa cuidavam de outros afazeres. Era um dia de festa e de agradecer a um milagre recebido.

Há treze anos, Toninho, um recém-nascido, o primeiro filho do casal, se recuperou de forma milagrosa de uma doença que ninguém soubedizer o nome. Um dia ao final de dezembro, o pequeno apagou-se, ou seja, dormiu do nada e ninguém conseguia fazê-lo retornar à vida. Parecia um feitiço.

O médico da família foi chamado e depois de horas não conseguiu dar nenhum diagnóstico. Foi, então, que Dona Maria, descalça, saiu correndo pelo chão de terra indo parar na pequena e simples Igreja. Contou o inexplicável ao padre Dirceu que, na hora, pressentindo algo não muito bom, largou o que estava fazendo e munido com seu livro de orações e com seu terço foi, rapidamente, ver o bebê.

Ao chegar no quarto pediu que todos saíssem dali. Fez algumas orações, cuspiu nos dedos e tocou nos olhos do menino. Milagrosamente ele despertou. Era Dia de Reis, um 6 de janeiro. E o casal, com o sorriso estampado no rosto, começou, a partir daquele dia, a festejar a cura do menino, seu renascimento, oferecendo aos participantes da Folia de Reis, aos vizinhos e amigos um almoço farto.

Antes do meio-dia, já se podia avistar lá longe na estrada, os palhaços com seus chapéus de cone. A cantoria ia ficando cada vez mais forte até que na porteira da casa podia se ver a bandeira do Cortejo, enfeitada com várias fitas coloridas.

O mestre da Folia de Reis repetia cantando sem se cansar, os versos que todos da casa, juntos, sabiam de cor: "Assim, como os três reis magos que seguiram a estrela-guia, a bandeira segue em frente atrás de melhores dias!"

O velho padre Dirceu, na hora do sermão, lembrava a todos a chegada dos Magos à casa do menino Jesus. Suas palavras, como que envolvidas ao mel silvestre, eram deliciosamente saboreadas por todos.Advertia, principalmente, Toninho."Nunca deixe de presentear já que a vida é um grande presente". Dizia mais, "Brilhe, brilhe como a estrela de Belém anunciando a chegada de um novo tempo."

Após as falas do padre, Seu José e Dona Maria se ajoelharam em frente ao altar improvisado, fizeram suas orações, agradeceram a vida de Toninho e ao ficarem de pé para o abraço, um rojão foi estourado, despertando várias emoções. Dona Maria, fechava o rosto, pois alguns de seus cachorros tinham convulsões com a força da explosão. Toninho pulava de alegria. Dizia ele que o estrondo do rojão não permitia que ninguém dormisse, naquele dia de festa.

Após o almoço, o grande presente dado aos integrantesdo cortejo da Folia de Reis, a festança foi terminando. O cortejo punha, novamente, o pé na estrada, buscando casas que fariam suas doações, dariam seus presentes. Tudo o que o Cortejo recebia era entregue ao orfanato da pequena cidade.

E foi assim que a casa de Seu José e Dona Maria ajudou a perpetuar uma das tradições europeias mais antigas trazidas pelos portugueses, a Folia de Reis ou a Festa de Santos Reis. Na estrada de terra, ouvia-se os versos "a bandeira segue em frente atrás de melhores dias!"

WAGNER NACARATO é coordenador de cultura, professor e diretor de teatro


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