Opinião

Um prelúdio de 2022

Precisamos ficar atentos, pois o episódio do Capitólio pode ser prelúdio de 2022


divulgação
SISTEMA PENITENCIARIO FABIO JACYNTHO SORGE
Crédito: divulgação

Na última semana, assistimos atônitos, a invasão do Capitólio dos Estados Unidos, por partidários do presidente Donald Trump, para impedir a contagem de votos do Colégio Eleitoral que apontaria Joe Biden como o novo presidente americano.

Ao comentar a invasão, o presidente Jair Bolsonaro, disse: "Aqui no Brasil, se tivermos o voto eletrônico em 22, vai ser a mesma coisa. A fraude existe. Aí a imprensa vai falar: 'Sem provas, diz que a fraude existe'. Eu não vou responder esses canalhas da imprensa mais, tá certo? Eu só fui eleito porque tive muito voto em 18". E complementou, em tom de ameaça: "Se nós não tivermos o voto impresso em 22, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos."

Assim, preocupa que a invasão do Capitólio sirva como referência para o presidente e seus apoiadores e que o que estamos vendo nos Estados Unidos, seja um prelúdio de 2022.

Essa manifestação de nosso mandatário, após dois anos de seu governo, não surpreende, Bolsonaro, como lembram os professores Steven Levitsky e Daniel Ziblatt no excelente livro, "Como as Democracias Morrem", dá evidentes sinais de comportamento autoritário, seguindo seu ídolo Trump, desde os tempos em que era deputado federal. No terceiro capítulo da obra, "A grande abdicação republicana", os autores trazem o que chamam de quatro principais indicadores de comportamento autoritário.

Aqui, nos interessa o primeiro, a rejeição das regras democráticas do jogo ou um compromisso débil com elas. Os autoritários tentam minar a legitimidade das eleições, recusando-se, por exemplo, a aceitar resultados eleitorais dignos de crédito. Exatamente como fez Trump, ao não reconhecer a vitória de Biden, sem apontar qualquer prova das fraudes que alegou. Além disso, buscam lançar mão ou endossar o uso de meios extraconstitucionais para mudar o governo, tais como golpes militares, insurreições violentas ou protestos de massa destinado à força mudanças no governo. Aqui, entra a invasão do Capitólio, instada pelo presidente americano que conclamou seus apoiadores a marcharem até o local.

Interessante notar que Trump, nos seus quatro anos de mandato não propôs uma reforma política, para melhorar o sistema eleitoral americano e torná-lo seguro. O seu imitador brasileiro, Jair Bolsonaro, vai pelo mesmo caminho. Desde que foi eleito em 2018, começou a questionar a segurança das urnas virtuais, pedindo a volta do voto impresso. A hipocrisia do presidente não deixa de chamar a atenção, já que ele foi eleito para o cargo de deputado federal por sete vezes e esteve no Parlamento por 30 anos e nunca criticou a urna eletrônica ou propôs mudanças. Parece que as fraudes só irão aparecer se ele for derrotado.

Precisamos ficar atentos, pois o episódio do Capitólio pode servir de prelúdio de 2022 se o presidente perder a eleição, pois ele já demonstrou não ter qualquer compromisso com a democracia.

FABIO JACYNTHO SORGE é defensor público do Estado de São Paulo, Vara do Tribunal do Júri e coordenador da Regional de Jundiaí


Notícias relevantes: